Verão Quente, Take 2

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É impossível resistir. Arredado da escrita sobre o mundo futebol, hoje não consigo fugir a escrever algumas linhas sobre o assunto do momento. Enquanto benfiquista (declaração de intenções) é difícil assimilar que aquele que nos habituámos a ver à frente da equipa, e com resultados brilhantes (últimos 2 anos, especialmente), troque isso por uma saída directa para o maior rival. Partindo da perspectiva dos envolvidos, directa ou indirectamente e terminando na minha própria leitura de tudo isto, eis o meu tiro no que toca à novela Jorge Jesus:

  • Benfica

Choque. Pelo que fui lendo, muitos benfiquistas antecipavam a saída de JJ. Eu próprio começava a ‘recear’ esse resultado. Creio é que ninguém o previu desta forma e para um rival (Porto ou Sporting). Posto isto, a esmagadora maioria das reacções, incluindo a do director de comunicação do Benfica (que pode ser lida na sua conta de twitter) é normal e compreensível. Começou por ser de incredulidade, e vai desaguando já nalguma resignação. Ver o mais titulado treinador da história do clube passar para o outro lado da 2ª Circular está a causar azia. Quem achar que isso é estranho revela entender muito pouco acerca do mundo futebol.

Quanto a Luís Filipe Vieira… joga aqui uma cartada de risco, reduzindo sobremaneira a margem para falhar. Entre outras coisas, creio que Vieira nunca esperou este desfecho (ida de JJ para o Sporting), e sempre esperou por uma de duas opções: que este optasse pelo estrangeiro (seria o óbvio, convenhamos); ou por uma renovação resignada. Digamos que tudo isto é arriscado para Vieira: ou confirma o crescimento da estrutura do clube, mostrando que o Benfica ganha com ou sem Jesus; ou arrisca-se a ficar para a História como o presidente que deixou fugir o melhor treinador dos últimos (largos) anos para o rival.

Assinale-se, no meio disto tudo, a extrema coerência que Vieira tem mantido (sem ironias): vem falando em baixar orçamento, reduzir custos e apostar na formação. Sai um treinador que não parecia muito disposto a isto, e provavelmente entra um cuja descrição que atrás deixei é também a descrição da sua carreira até ao momento. Veremos se há unhas ‘vitoriosas’ para uma tão difícil viola…

  • Sporting

Inesperado, no mínimo. Ainda ontem vi sportinguistas desconfiados da veracidade de uma informação que agora parece inevitável. A euforia generalizada com que a notícia foi recebida mostra o grau de ilusão que a nova época carregará para os lados de Alvalade.

Do ponto de vista desportivo, JJ é, sem dúvida, o melhor treinador disponível (exceptuando alguns nomes fora do alcance de qualquer clube português). Do ponto de vista psicológico, é uma enorme bicada no rival (a fazer lembrar o Verão Quente de ’93). Do ponto de vista financeiro é uma enorme jogada de risco e uma valente guinada naquilo que tem sido o discurso e até o trabalho de contenção que BdC tem assumido. E se, como se diz, o dinheiro vem de investimentos externo, não deixa de ser estranho vindo de quem tanto tem lutado contra fundos e a favor da transparência. Não vejo grande diferença entre uns e outros, mas quem está por dentro saberá melhor que eu, certamente.

A realidade é que o Sporting estará mais próximo de lutar pelo titulo nacional. Também é verdade que, sendo grande treinador, JJ não será capaz de milagres, até porque o problema do Sporting não têm sido os treinadores (Jardim e Marco são treinadores muito competentes). A acompanhar o investimento no treinador, a equipa necessitará também ela de investimento (como aconteceu no Benfica de JJ). Haverá € para isso? A que custo? Perda da maioria da SAD? Entrada massiva de capital externo? No plano desportivo, grande jogada de BdC. Resta perceber quais os contornos financeiros desta decisão.

Um pequeno parágrafo para a forma como Marco Silva está a ser tratado no meio de tudo isto. Contratar um treinador quando ainda há um em funções e com contrato é eticamente reprovável, seja aqui ou na Guiné Equatorial.

  • Jorge Jesus

Confesso que estou com dificuldade em entender o que vai na cabeça de JJ. Fala-se que terá prometido ao pai um desfecho destes, mas não deixa de ser uma decisão estranha do ponto de vista desportivo. Em primeiro lugar, JJ arrisca-se a condenar o lugar que já tinha (por mérito próprio) na história do Benfica. De treinador mais titulado a Judas, eis um caminho que para os adeptos encarnados será (se é que já não foi) facílimo de percorrer.

O que tem JJ a provar ainda? Que os últimos 6 anos de Benfica foram mais dele do que do clube? É legítimo querer fazê-lo, mas não deixa de ser uma facada nas costas de um clube (e de um presidente) que lhe deu todas as condições, mesmo depois daquele final da época 12/13, ou até mesmo da época desastrosa, perdida para Villas-Boas.

A ser verdade, fico com imensa curiosidade na forma como JJ vai abordar o projecto Sporting, que desde há 20 anos assenta na formação. Sendo público que se trata de um treinador pouco amigo dessa política, como se vai portar JJ nesse campo? O futuro o dirá. Para já, e com esta decisão, Jesus arrisca: o seu lugar na história do Benfica está, definitivamente, em jogo.

  • FCPorto

O Porto assiste a tudo isto de cadeirinha. O único clube que nada venceu nas últimas 2 épocas ganha a carta da estabilidade na época em que vê o seu domínio e hegemonia definitivamente colocados em causa pelo bicampeonato do Benfica. Depois de uma época em que o ‘all-in’ não redundou em resultados desportivos, e em que o desinvestimento deverá ser uma realidade, deve haver algum conforto por perceber que aquele que tem sido o principal rival está a perder um dos seus grandes trunfos. Acredito que no Dragão se esteja a assistir a isto tudo enquanto se degusta um belo balde de pipocas, a la Hollywood.

Falo agora enquanto benfiquista que sou. Estou com dificuldades em lidar com o assunto, confesso. Jorge Jesus foi o melhor treinador que vi no Benfica, e o Benfica de 09/10 e de 12/13 foi o melhor que pude ver jogar. Posto isto, tenho muita dificuldade que Jorge Jesus esteja a fazer isto a um clube e a um presidente que lhe deram todas as condições nos últimos 6 anos. A legitimidade para o fazer ninguém lha tira (acaba contrato no final do mês e é livre de assinar por quem quer que seja), e certamente terá as suas razões (afectivas, financeiras, etc), mas não deixa de ser estranho e até ter contornos de uma vingança que não me parece merecida para com o clube que o projectou.

Falemos agora do Benfica. Rui Vitória não me aquece muito. Sou pouco fã do que foi o Vitória (o clube) nestes anos, embora reconheça trabalho de grande qualidade feito pelo Vitória (o treinador) com os (poucos) recursos disponíveis. Tenho muitas dúvidas que esta ideia da formação dê para um Benfica vencedor no futebol actual. Se eu mandasse, era um all-in poderoso (sem vendas), com Marco Silva (primeira opção) ou Vítor Pereira no comando, mas isso não vai acontecer. Resta a dúvida: quanto valerá um Benfica com Vitória e sem Gaitán, Salvio (que só deve voltar lá para o Natal…) e Maxi (começo a ter dúvidas que fique)? O futuro o dirá. Já estive mais optimista. Mas como isto da bola é sempre mais emoção que cabeça, resta-me esperar que o Verão Quente de ’15 redunde num belo Maio de ’94, que por sinal é o primeiro campeonato conquistado pelo Benfica de que tenho memória. Em Maio voltamos a falar. Até lá, siga a silly season!

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Ser ou não ser Charlie.

Os acontecimentos da última quarta-feira tomaram-nos de assalto e causaram um sentimento generalizado de revolta. Independentemente da nossa opinião, ou até do conhecimento (na maioria dos casos, total desconhecimento, diga-se) do trabalho do Charlie Hebdo, todos agimos como se os nossos valores tivessem sido colocados em causa. E foram-no. Numa Europa com muitos defeitos, é possível ver a olho nu duas enormes virtudes, a liberdade e a tolerância. O que aconteceu na quarta-feira atacou não só esses como ainda um outro valor, suporte de grande parte da vida que levamos neste lado do Globo, a segurança.

Por opção, não vou falar da linha editorial do Charlie Hebdon. Sinceramente, considero-a irrelevante para o caso. Nada, neste mundo ou no outro, justifica que homens armados matem indiscriminadamente quem quer que seja. Nada. E recuso-me a coloca um ‘mas’ nesta frase, porque fazê-lêo constitui um perigo imenso. Um ‘mas’ aqui inocentemente colocado é a cedência à chantagem inteligentemente perpetrada através deste terror que nos querer fazer ver o mundo a uma só cor.

Qualquer discussão sobre os limites da liberdade de expressão, de pensamento ou de imprensa deve ser independente de actos como os que ocorreram em Paris. Sim, a liberdade e os excessos que ela provoca e sempre provocou/provocará devem ser discutidos, mas nunca à luz da barbárie, sob pena de estarmos a ceder à linha de pensamento que norteia gente capaz de fazer uma coisa destas. Imaginemos um mundo em que, por cada opinião discordante, se levanta uma AK47. A liberdade e os seus limites devem ser discutidos sem recorrer à natural limitação que estes acontecimentos nos impõe ao raciocínio. Até porque a liberdade, terror e rajadas de metralhadora não parecem ser compatíveis.

Não incorramos no erro de assumir que o bom senso trata do resto. O bom senso é um desafio individual. O meu bom senso não é o seu bom senso, caro leitor. E vice-versa. Achar que tudo se pode resolver nesta base é produto de um certo egocentrismo a que nos impomos, e que crê genuinamente na bondade e superioridade de tudo aquilo em que acreditamos. Não, o meu bom senso, sendo diferente, não é superior ao de ninguém. E acontece que nem tudo aquilo em que creio é verdadeiro e bondoso. Isso prova-se pelo número de vezes que acreditámos piamente em factos, pessoas ou histórias que se vieram a revelar falaciosas ou até maldosas.  Esta margem de erro é algo com o qual temos de aprender a viver e conviver. Há coisas que eu faço que ferem o bom senso de alguns, e o contrário é válido também. Por isso de nada nos vale a assunção de que a liberdade é assunto da esfera desta esfera. Não, a liberdade, enquanto valor colectivo, tem de se sobrepor a esse bom senso, valor individual. O facto de não concordar, de achar idiota, ou até de achar ofensiva a opinião de alguém, não me dá o direito de a silenciar. Dá-me o direito, e às vezes até o dever de a refutar, mas nunca me dá o direito de silenciar seja o que for.

Termino com palavras de uma figura que muito admiro e respeito, e sobre quem convido os leitores a pesquisar e conhecer um pouco da sua história. Martin Niemoller. Pastor luterano, conservador, enganado pelo canto da sereia dos primeiros anos de nazismo que parecia defender um país forte e seguro, tornou-se um dos maiores opositores ao regime nazi da Alemanha de Hitler, facto pelo qual pagou alto preço. A determinado ponto, eis as suas palavras:

“Quando os nazis levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata. Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse”

Eu não sei se sou Charlie. Mas espero que, se algum dia me levarem, ainda por cá haja alguém para protestar.

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Pequenos (e poderosíssimos) Princípios – Esaú

‘Nunca tomes uma decisão permanente como forma de alcançar um bem temporário.’

A vida é uma cedência constante. Seja no casamento, na vida profissional ou nas amizades, saber ceder tornou-se uma arte. E das difíceis. São muitas as vezes em cedemos demais e acabamos reféns de escolhas baseadas em princípios pelos quais nem sequer nos regemos, mas aos quais nos decidimos render. Noutras tantas vezes, somos tão intransigentes e indomáveis de opinião, que nos tornamos impossíveis de suportar.

Como disse, a cedência é uma arte. Da mesma forma como o é andar numa pequena corda, 20m acima do chão, sem cair. Toda a forma de equilíbrio é arte. Saber ceder é arte. Saber ser intransigente também o é. Saber quais as linhas que pisamos e quais as que nunca ultrapassaremos? Pois, também se trata de arte..

Por vezes temos a tendência (humana, diga-se) de tomar decisões com efeitos permanentes ‘só’ porque estas aliviam uma determinada situação de forma temporária e imediata. É o princípio da dor física transposto para a nossa vivência. Quando sentimos dor, a nossa preocupação inicial não é a de saber o porquê, mas sim acabar com a dor, custe o que custar. Na vida, e devido a esse princípio, muitas vezes nos limitamos a ‘tomar analgésicos’, sem procurar saber a raiz da dor da nossa alma. E nesses analgésicos, regularmente, encontram-se concessões que nos aliviam o presente mas hipotecam de forma irremediável o futuro.

Nunca me esqueço da história de Esaú. O cansaço e a fome fizeram-no tomar uma decisão parva. Por causa de um guisado, o Deus de ‘Abraão, Isaque e Esaú’ tornou-se o Deus de ‘Abraão, Isaque e Jacó’. Trocar um benefício permanente para experimentar um alívio temporário tem este resultado: até pode saber bem no momento, até pode contribuir para aliviar a carga no presente, mas essa troca, mais tarde ou mais cedo, encarregar-se-à de nos apagar da História futura. Ou, no limite e na melhor das hipóteses, de nos tornar aquele que personifica na perfeição o papel terrível de ‘viste o que lhe aconteceu? Não cometas o mesmo erro.’ Sinceramente, não creio nenhum de nós queira representar esse papel no palco da nossa História.

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A angústia da decisão

Haverá alguém neste mundo que goste de se sentir angustiado? De todas as sensações, é talvez a mais difícil de conseguir lidar com, provavelmente devido à diversidade e imensidão de dor interior que nos causa. Há, na angústia, uma espécie de impotência que nos mói a alma, um assumir de que não está nas nossas mãos mudar a situação, o que muitas vezes nem sequer corresponde à verdade.

A angústia é algo que me invade frequentemente. E há uma multiplicidade de situações que levam a que isso aconteça. Mas há uma angústia, talvez aquela que mais me afecta a alma, pela qual aprendi a desenvolver respeito. E aqui reside a primeira lição que aprendi: aprender a respeitar a angústia. Nem sempre insurgirmo-nos contra a angústia é a coisa a fazer. Muitas das nossas angústias têm de ser respeitadas porque, imagine-se, fazem parte da vida e do nosso crescimento. Dizia eu que aprendi a respeitar esta angústia. Qual? A angústia que antecede algumas das decisões da minha vida. Falo especialmente da angústia que antecede a tomada das grandes decisões.

Sem menosprezar as pequenas decisões que condicionam e contribuem para o nosso dia a dia, há que dizer que existem algumas decisões que são, de facto, transformadoras ao ponto de nos deixarem nervosos, ansiosos e até angustiados. São uma percentagem muito pequena, mínima até, do total de decisões da nossa vida, mas estão lá, prontas para nos deixar num estado de alma que, por vezes, roça o lastimável. Será isto uma má notícia? Tenho pensado em quantos erros já teria cometido se a angústia que antecede uma decisão importante não existisse. Isso significaria que teria tomado muitas dessas decisões de ânimo leve, sem ponderar devidamente, sem pensamento nem planeamento. E se a angústia for aquilo que nos impede de tomar decisões grandes de ânimo leve, apenas por feeling ou percepção momentânea dos factos?

Durante os anos em que estudei na faculdade apanhei muitos tipos de colegas. Desde os ‘marrões’, que respiravam a pensar no curso, até aos amantes da diversão pura e dura, pouco interessados no conhecimento que o curso tinha para oferecer. Mas estes dois tipos, situados no extremo, eram a larga minoria. Pelo meio ‘amontoavam-se’ largas centenas de outros alunos, a quem eu chamaria de ‘normais’. Dentro destes ‘normais’, cedo verifiquei que não era raro haver grande variação de resultados entre cadeiras e matérias, facto que sempre achei interessante. Eram várias as vezes em que alguém que parecia menos à vontade com determinada matéria conseguia melhor nota que aqueles que, dentro da categoria dos ‘normais’, pareciam mais familiarizados com determinada temática. Até que percebi que era quase tudo uma questão de confiança, de falta e excesso. Muitos dos que pareciam menos à vontade ficavam, regra geral, mais assustados e nervosos com o exame, o que redundava numa preparação mais cuidada do mesmo, com mais horas de estudo, maior organização do mesmo, etc. Por outro lado, muitos dos que pareciam mais confiantes, acabavam por descurar, mesmo que inconscientemente, o seu estudo naquela matéria em detrimento de outras disciplinas que, segundo a sua análise, necessitava de mais horas de devoção. Resultado? A maior parte das vezes o estudo acabava por compensar e ultrapassar a confiança. Porquê? Porque o nervosismo e a angústia que se apoderavam dos menos preparados acabava por ser o factor diferenciador que impulsionava muitos deles para mais horas de estudo e preparação.

E se a angústia estiver para o decisor como o nervosismo está para o aluno? E se for a angústia que nos ‘obriga’ a pensar, planear, preparar uma grande decisão? Não será, nesse caso, benéfica para o processo?

Claro que no meio de tudo isto se situa uma angústia diferente. Há situações em que a angústia nos tolda o raciocínio e bloqueia a nossa capacidade de ver, analisar, planear e até pensar. Essa é a angústia paralisante da qual necessitamos de fugir. A angústia pode ser positiva quando é a gasolina que nos obriga a estar preparados para determinada decisão. Mas concebo poucas coisas mais nefastas para o ser humano que deixar-se enlear pela ‘outra’ angústia. Aquela que nos rouba o entendimento e nos leva a um beco sem saída, logo, a decisão por reacção. E se há coisa da qual devemos fugir na vida é das decisões por reacção. Mas isso guardaremos para um dia destes…

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Um último gesto de bondade

Foi aprovado hoje na Bélgica (falta ‘apenas’ baixar à câmara baixa do parlamento belga) um projecto de lei que permite a possibilidade de uma criança em estado terminal e/ou sofrendo de dores físicas insuportáveis, pôr termo à sua vida, de forma assistida, recorrendo àquilo que vulgarmente conhecemos como ‘eutanásia’.

No meu entender, não se trata uma questão de consciência. As questões de moralidade são-no. Morte versus vida não é uma questão de moralidade, por isso nunca pode ser uma questão uma questão da consciência humana. Sim, podem rotular-me como ‘pró-vida’, em todas as suas formas. Acredito piamente que aquilo que está inscrito no nosso código genético é a vida. Dois dos instintos mais básicos que possuímos são de sobrevivência/conservação da vida: o da nossa própria sobrevivência e o da sobrevivência da espécie. Pugnar pelo fim da vida, em que circunstância for, é contrariar esse mesmo código. Nada em nós pede o fim de quem somos, pelo contrário. De alguma forma, fomos desenhados para viver e prolongar essa vivência existência ao máximo, quer em tempo, quer em qualidade da mesma. Quem disser o contrário, acaba por recorrer numa espécie de hipocrisia já que, entre outras coisas, todos os dias respira e se alimenta de água e alimentos que lhe permitem prolongar os seus dias na terra. Na minha humilde opinião, foi para isso que fomos desenhados.

Confesso que me causa alguma confusão que uma entidade laica (o Estado), para quem a morte é o fim de tudo (enquanto entidade laica não lhe é permitido tomar posições de índole religiosa), assuma que a morte (que para o Estado é a passagem para ‘nada’) seja uma solução para o que quer que seja. Daí que a pena de morte, por exemplo, me faça enorme confusão. Que poder tem o Estado para enviar alguém para lugar nenhum? (volto a lembrar: a laicidade é uma característica dos Estados ocidentais – e ainda bem – o que significa que não defende ou professa nenhuma religião, e por isso não pode considerar a morte na perspectiva religiosa). Infelizmente, os Estados têm provado ao longo dos séculos que nem em matérias bem menos complexas se conseguem governar convenientemente, quanto mais nas que envolvem a vida humana em toda a sua complexidade…

Mas voltemos ao tema. A minha opinião é contrária a qualquer morte assistida. Volto a dizer que o nosso projecto inicial implica viver, ou morrer a tentar fazê-lo. Todo o nosso corpo clama por isso, e parece-me ‘ousado’ contariá-lo nessa demanda. É óbvio que a discussão é bem mais complexa. Muitas vezes, o sofrimento e a dor de quem está em situações extremas tornam a vida numa inumana sucessão de suplícios e aflições indescritíveis. Já tive oportunidade de escrever vários pensamentos sobre o tema aqui, fruto de um outro caso concreto, embora diferente. Como escrevi no artigo atrás mencionado, não concebo que alguém, de forma consciente, decida pôr termo à sua própria vida. Assumir o contrário é colocar, no meu entender, a vida num ponto de relativização muito perigoso, da mesma maneira que defender a pena de morte o é. A vida é um valor absoluto, que qualquer sociedade deve defender, seja em que moldes ou circunstâncias for. De outra forma, ficaremos sempre nas mãos daquilo que alguns decidirem que deve ser ‘vida a ser preservada’, e a História mostra-nos o quão perigoso isso é. Vida é vida, sem mas, nem ponto final. O papel de cada um individualmente é proteger a sua e a dos outros, e o papel do Estado é proteger a vida enquanto valor absoluto. Ao falhar nessa defesa, a sociedade falha num dos pilares fundamentais da sua existência.

Perante isto, que dizer de um projecto de lei, aprovado num país civilizado (Bélgica. Não falamos do Afeganistão, do Irão ou do Ruanda. Bélgica, membro da União Europeia, parte do ‘civilizado’ mundo ocidental) que nos pede que aceitemos que as “crianças devem ter o direito de decidir sobre o fim de suas vidas”? (palavras de Gerlant van Berlaer, pediatra na Universidade Ziekenhuis, um dos defensores da proposta) Tantos problemas morais que isto levanta… o que é considerado ‘estado terminal’? E o que tomamos por ‘dores insuportáveis’? Como pode uma sociedade decidir que alguém que não tem maturidade para votar, ou ter responsabilidade financeira ou criminal, possui essa mesma maturidade para decidir pôr termo à sua vida? Como é que matar pode ser ‘um último gesto de bondade’? Como pode ser a morte, em que circunstâncias for, um gesto de bondade? E ainda mais quando se trata de uma criança! Como é isto possível sequer de ser discutido? 

Mas o meu choque não fica por aqui. Talvez esta seja a antecâmara do que esta espécie de ‘humanismo pragmático’ nos reserva para o futuro. Eis que proposta inicial “incluía crianças com doenças mentais”, nas palavras da deputada Els Van Hoof.“ Durante o debate, os defensores da eutanásia falaram sobre crianças com anorexia, crianças que estão cansadas da vida.”  Tal monstruosidade enoja-me. Isto é a sociedade a demitir-se da responsabilidade de dar um futuro e uma esperança a uma geração, por mais ‘cansada da vida’ que ela esteja. São vidas que estão em jogo! São crianças, muitas delas indefesas, incapazes de compreender ainda o que a vida lhes pode reservar. Como pode uma criança decidir que a morte é a sua solução? Como pode um Estado achar que uma criança pode tomar uma decisão desta magnitude? Como pode ser a vida tão pouco importante e relativa para quem defende uma anormalidade destas?

Termino com a prova feliz de que a realidade se encarrega de desmentir muitos dos prognósticos e diagnósticos que nós, seres humanos, fazemos. Com a devida autorização da própria, e ainda que virtualmente, apresento-vos a Mafalda Ribeiro. 30 anos. Portadora de deficiência. Osteogénese imperfeita. Uma condição que a acompanha todos os dias, desde o primeiro. Os médicos deram-lhe 1 dia de vida. Depois corrigiram o diagnóstico para uma semana, no máximo um mês. Passado o primeiro mês, a correcção do diagnóstico já foi temporalmente menos comprometida. ‘Não passa da idade pré-escolar’ disseram. Entretanto, 30 anos correram debaixo da ponte. Mas dizer que a longevidade é tudo, é passar ao lado do mais incrível de tudo isto: o percurso, a história e a energia que emana de um ser humano que tinha todas as razões para já não estar neste mundo. A forma como tem encorajado gente dos 8 (ou até menos) aos 88. Ao pé dela, a ‘coragem’ para sentir dores diminui, as desculpas que a nossa mente tanto gosta de inventar retiram-se, cheias de vergonha de si mesmas, e as probabilidades são largamente desafiadas. Desde que a conheço – já lá vão uns anos – não paro de ser surpreendido. O facto de ter qualidades e defeitos – como todos os seres humanos – facilmente me faz esquecer a sua ‘condição’, não fosse o simples facto de a carregar tantas vezes, e de forma literal, ao colo. As qualidades que mais lhe aprecio? Nunca lhe ouvi uma palavra de lamento, o que é próprio de alguém que sabe que tem um propósito debaixo do céu. Junte-se-lhe o viver num constante desafiar das probabilidades, com a confiança própria de quem o anda a fazer desde o ventre da mãe, e não consegue deixar de lutar para cumprir esse mesmo propósito. Eu e todos os que de alguma forma já fomos tocados pelo seu exemplo, só podemos dar graças pela opção que os pais da Mafalda tomaram há 30 anos. Sem essa sábia e abençoada decisão, hoje não conheceria essa autêntica ‘ode às improbabilidades’, a quem o carinho obriga a que tratemos por Mafaldinha. Que a tua ‘ode às improbabilidades’ seja uma luz que sempre nos relembre que, qualquer que seja o problema ou a questão, a vida em forma de verbo é a resposta. Mesmo depois da morte.

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Suprema Ironia

A fé alheia é sempre insuficiente. A generosidade do outro é sempre abaixo do que poderia e deveria ser. A boa vontade de fulano, sicrano ou beltrano é sempre resultado de algum interesse particular escondido. A riqueza deste ou daquele é sempre obtida de forma desonesta. As vitórias de ‘x’ pessoa nunca são fruto de mérito, esforço e dedicação. A sorte é uma vizinha teimosa que insiste em oferecer conquistas a quem menos as merece. Até Deus, do alto da Sua sabedoria e omnisciência, se vai enganando aqui e ali, distribuindo de forma errada e equivocada boa parte das Suas graças.

Mas nós não, pois não? Julgamos a nosso bel-prazer aquilo que não é conjugado na primeira pessoa, pessoa essa (nós) que todos os dias revela essa qualidade, capacidade e até frieza de estar sempre no sítio certo. E se a fé nos fraqueja é porque as circunstâncias (alheias, e por isso, incontroláveis) a isso nos obrigaram. Se a generosidade é curta, tal deve-se a esta desgraçada conjuntura que nos estrangula. A nossa boa vontade é sempre a melhor, excepto quando não é. A nossa riqueza é sempre fruto de imenso sangue, suor e lágrimas, mesmo quando o sangue, o suor e as lágrimas derramadas não passam de uma encantadora fábula. As nossas vitórias e conquistas são sempre épicas e esforçadas, mesmo quando é preciso acrescentar pontos aos contos. E Deus, esse grandíssimo ser em quem depositamos tanta coisa, tem também aquelas largas e longas costas (ou barbas, quem sabe), sítio em que depositamos as responsabilidades da nossa ‘má fortuna’, vulgo ‘destino’. Do alto da nossa soberba, perguntamos ‘que raio de justiça é a Tua?’ E até o orgulho, esse terrível habitante dos planetas que à nossa volta gravitam, não passa de ‘santo’ quando decide penetrar na camada do ozono do planeta ‘Eu’.

Eu sei que estas palavras não se aplicam a nenhum de nós. E é por isso que escrevo para essa entidade imaginária, entidade na qual deposito a esperança de ver assumidos os erros próprios, entidade essa que tem um nome tão esquisito quanto indefinido, e que dá pelo nome de ‘outros’. Ai de mim ter a coragem de escrever para si, caro leitor. E ainda mais ai de mim escrever para mim mesmo, entidade divina e intocável, que nunca falha e raramente tem dúvidas. E quando decido não escrever para nenhum de nós, isso não é sintoma de cobardia, de forma nenhuma. É apenas porque aqueles sobre os quais eu deveria/poderia/queria escrever são pessoas nas quais já perdi a fé. A disposição para gastar o meu latim em fariseus que nada fazem/fizeram/farão, tem limites e eu já atingi os meus.

Deixo última palavra a todos os que atiram pedras e críticas e chamadas de atenção e que se têm divertido com o lançamento de chatices várias sobre a minha pessoa ao longo dos anos. Digamos que estou a coleccionar todas as pedras que têm sido atiradas. E não, não é Fernando Pessoa e a ideia peregrina de com elas construir um castelo que por trás disso se esconde. É mesmo a certeza de que, um dia, terei oportunidade de devolver todas elas, uma a uma, carregadinhas de juros. Se vos dissesse o quanto anseio por esse dia, todo um novo texto se abriria à nossa frente. Para já, limito-me a guardá-las, do alto da minha extrema capacidade, sabedoria e inteligência. O buraco que tenho na alma é de tal forma grande, que para todas elas tenho espaço de sobra.

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