O alvo, a flecha e o atirador

A vida é assim mesmo. Encontrarmo-nos e desencontrarmo-nos. Achar que ‘estamos lá’, cairmos em nós mesmos e ver que afinal estamos, longe, longe, longe. Fazer pontaria a um alvo e perceber, no exacto momento antes de disparar a flecha, que estamos a apontar para o alvo errado. A vida é muito isto. E quem ousar dizer o contrário… pois bem, possivelmente ainda não viveu a vida na sua plenitude. 

A realidade é vivemos a nossa vida a achar que nos conhecemos profundamente, que sabemos em exatidão quem somos. Talvez poucas coisas estejam mais erradas que esta. Sim, conhecemos alguns padrões de resposta a muitos dos desafios que nos são colocados no dia a dia, mas a crua verdade é que viveremos sempre na descoberta de quem somos verdadeiramente, onde nos encaixamos, onde está a nossa identidade. E agora pergunto: quem disse que isso é uma má noticia? A vida é muito mais do que o simples acto de escolher um alvo, um objectivo, e atirar a ele, e é também muito mais do que a certeza de quem somos. Ou melhor, de quem achamos ser.

A grandeza do ser humano conta-se nisto: uma busca incessante, não raras vezes esmagadora, de quem sou, da minha identidade. E aquilo a que muitas vezes chamamos epifania, nada mais é que o choque frontal com a realidade que já conhecemos na essência. Verdadeiramente, a nossa essência sabe quem somos, mas o nosso intelecto e a nossa razão não o sabem.

Resta-nos a esperança, a expectativa, de um dia sabermos exactamente quem somos. Chamem-me negativista, mas creio que esse dia terreno nunca chegará para nenhum de nós. Porque não é suposto que esse dia venha alguma vez a acontecer. A vida não trata de conhecermos quem somos na plenitude, mas sim daquilo que vamos conhecendo de nós mesmos no intervalo de tempo que separa o dia do nosso nascimento do dia da nossa morte. Ao contrário do que muitas vezes achamos, o mais importante não é o alvo, nem o atirador, nem o mecanismo de propulsão da flecha, nem a própria flecha. O importante, o desafiante, o incrivelmente difícil, mas também inacreditavelmente recompensador, é todo o caminho que faremos desde o momento em que somos lançados, até ao momento em que batemos no alvo. E se é verdade que a maioria de nós tem já uma boa parte dessa trajectória feita, também o é o facto de que ainda todos vamos a tempo de desfrutar de tudo o que nos falta percorrer até ao famoso alvo.

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