O burro e a zebra (ou a história da crise que tinha as costas largas)

Um amigo uma vez disse-me uma das frases mais memoráveis que me lembro de ter ouvido. ‘Pouco importa se pintas um burro às listas brancas e pretas, de modo a que pareça uma zebra. Lá no fundo, ele sempre será um burro.’

Sejamos concretos. Gente que é mal educada é-o com ou sem crise. Gente que é avarenta, é-o com ou sem crise. Gente mesquinha, mal formada, e cheia de intenções dúbias é-o com ou sem crise. Gente de mau carácter é-o com ou sem crise.

Mas há quem nos esteja a tentar convencer que não, que a crise é que está a causar tudo isto, que a má-educação, que a mesquinhez, que a pequenez são o fruto puro e simples daquilo que estamos a viver. A esses digo-vos que as circunstâncias não inventam a nossa personalidade, apenas fazem vir ao de cima, sem filtro, aquilo que somos na realidade. Para alguns, a crise foi a chuva que dissolveu a tinta que fazia com que burros parecessem zebras. Só que, ao contrário do que era hábito, e por incrível que pareça, parece que isso se tornou aceitável.

É por isso que adoro o facto de, escondidos atrás desta capa, muita gente ser tudo aquilo que enumerei acima, assumindo-o sem pudores. Sempre com o argumento do desespero, das circunstâncias, pronto a ser utilizado quando alguém os confronta. Como se o desespero (admito que relativo, em muitos desses casos) fosse desculpa para todo o tipo de disparate.

Eu bem sei que a externalização de todos os males é bem mais confortável que o assumir de qualquer responsabilidade. É sempre melhor para o ego e mais fácil de conviver com o facto de sermos alheios a todos os males da sociedade. E é isto que me causa frustração e irritação. Os tais mesquinhos, mal formados, mal educados e com mau carácter, são os mesmos que, e sempre ao abrigo desta sua capacidade sobrenatural de proclamar as verdades, parecem querer pulverizar qualquer tipo de esperança, ou de sentimento contrário ao seu pessimismo reinante. Talvez o façam por terem percebido que é esse pessimismo reinante que torna aceitável serem quem são. É como se o burro percebesse que já não precisa de viver pintado de zebra para ser aceite. Não precisa do desconforto de retocar a tinta todas as manhã ao acordar, ou da comichão que a mesma lhe faz em contacto com a pele. Basta-lhe ser burro, e isso garante-lhe o palco que sempre almejou.

Ponho umas moedas valentes em como escrever estas linhas me vai valer mais um chorrilho de críticas de gente a dizer que estou a defender o sistema, o Governo, e tudo quanto é mal deste mundo. Estou certo que vão haver pessoas a conseguir ler nestas linhas o que nelas não está escrito. Sintam-se livres para o fazer, eu convivo bem com isso.

A maior mentira da Humanidade é esta pregação que nos diz que todos os problemas da mesma nos são externos. No dia em que Homem achar que é à sua volta que tudo está mal, e nada há a fazer no seu interior, terminou o nosso esforço de mudança. A mentira, essa, continuará a ecoar por todo o lado. E os burros clamarão alto e bom som: ‘Eu? Mudar? Quem precisa de mudar é o…’

Começa aí o início do nosso fim.

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  1. #1 by Júlio Pereira on 11 de Novembro de 2012 - 20:48

    Plenamente de acordo. Isto é a raça humana. Quando tudo está bem o mérito é meu, quando está mal a culpa é de alguém, mas minha não. Se olhàssemos para trás e fossemos honestos veríamos que poderíamos ter dado uma ajuda e não demos, antes ficamos cada um refestando-se no seu conforto. Agora algo tem que mudar. Demos graças a Deus pelo que já vivemos e resignemo-nos pelo que temos de viver e agora busquemos a graça de Deus porque vamos precisar mais dela. Eu costumo dizer que há males que vêm por bem, e provàvelmente esta será a lição que Deus precizava dar-nos. Quem quiser tome a sua cruz e siga, quem não quiser atire-a ao chão e reclame. Eu sei bem quem vai ganhar mais. Não são os que atirarem a cruz ao chão. Têm razão os que dizem que há alguém que foi mais responsável por isto e não foram responsabilizados, mas já não há volta a dar-lhe. Agora é agir com amor e não com ódio. Quem estiver do lado errado vai perder mais.

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