Archive for category Ficção…sim ou não?

Suprema Ironia

A fé alheia é sempre insuficiente. A generosidade do outro é sempre abaixo do que poderia e deveria ser. A boa vontade de fulano, sicrano ou beltrano é sempre resultado de algum interesse particular escondido. A riqueza deste ou daquele é sempre obtida de forma desonesta. As vitórias de ‘x’ pessoa nunca são fruto de mérito, esforço e dedicação. A sorte é uma vizinha teimosa que insiste em oferecer conquistas a quem menos as merece. Até Deus, do alto da Sua sabedoria e omnisciência, se vai enganando aqui e ali, distribuindo de forma errada e equivocada boa parte das Suas graças.

Mas nós não, pois não? Julgamos a nosso bel-prazer aquilo que não é conjugado na primeira pessoa, pessoa essa (nós) que todos os dias revela essa qualidade, capacidade e até frieza de estar sempre no sítio certo. E se a fé nos fraqueja é porque as circunstâncias (alheias, e por isso, incontroláveis) a isso nos obrigaram. Se a generosidade é curta, tal deve-se a esta desgraçada conjuntura que nos estrangula. A nossa boa vontade é sempre a melhor, excepto quando não é. A nossa riqueza é sempre fruto de imenso sangue, suor e lágrimas, mesmo quando o sangue, o suor e as lágrimas derramadas não passam de uma encantadora fábula. As nossas vitórias e conquistas são sempre épicas e esforçadas, mesmo quando é preciso acrescentar pontos aos contos. E Deus, esse grandíssimo ser em quem depositamos tanta coisa, tem também aquelas largas e longas costas (ou barbas, quem sabe), sítio em que depositamos as responsabilidades da nossa ‘má fortuna’, vulgo ‘destino’. Do alto da nossa soberba, perguntamos ‘que raio de justiça é a Tua?’ E até o orgulho, esse terrível habitante dos planetas que à nossa volta gravitam, não passa de ‘santo’ quando decide penetrar na camada do ozono do planeta ‘Eu’.

Eu sei que estas palavras não se aplicam a nenhum de nós. E é por isso que escrevo para essa entidade imaginária, entidade na qual deposito a esperança de ver assumidos os erros próprios, entidade essa que tem um nome tão esquisito quanto indefinido, e que dá pelo nome de ‘outros’. Ai de mim ter a coragem de escrever para si, caro leitor. E ainda mais ai de mim escrever para mim mesmo, entidade divina e intocável, que nunca falha e raramente tem dúvidas. E quando decido não escrever para nenhum de nós, isso não é sintoma de cobardia, de forma nenhuma. É apenas porque aqueles sobre os quais eu deveria/poderia/queria escrever são pessoas nas quais já perdi a fé. A disposição para gastar o meu latim em fariseus que nada fazem/fizeram/farão, tem limites e eu já atingi os meus.

Deixo última palavra a todos os que atiram pedras e críticas e chamadas de atenção e que se têm divertido com o lançamento de chatices várias sobre a minha pessoa ao longo dos anos. Digamos que estou a coleccionar todas as pedras que têm sido atiradas. E não, não é Fernando Pessoa e a ideia peregrina de com elas construir um castelo que por trás disso se esconde. É mesmo a certeza de que, um dia, terei oportunidade de devolver todas elas, uma a uma, carregadinhas de juros. Se vos dissesse o quanto anseio por esse dia, todo um novo texto se abriria à nossa frente. Para já, limito-me a guardá-las, do alto da minha extrema capacidade, sabedoria e inteligência. O buraco que tenho na alma é de tal forma grande, que para todas elas tenho espaço de sobra.

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Como se mede um povo?

Por que medida se mede um povo? Talvez pela grandeza dos seus feitos ou pela bondade dos seus corações. Talvez até pelas realizações demonstradas pela História, ou pelas histórias contadas de boca em boca, desembocadas no presente e vivas na credulidade de todos. Talvez até se possa medir esse povo pelo momento, pela capacidade actual, pela força bruta, pela inteligência bélica ou pela capacidade de sobrevivência. A tudo isto lanço um talvez. Mas o que talvez é muitas vezes não chega, na realidade, a sê-lo. Medir um povo é, por isso, relativamente difícil. Mas não é impossível…

Medir um povo é falar da sua História, sim. É falar dos feitos e das grandezas, das derrotas e das fraquezas. Dos momentos em que lá chegámos e dos momentos em que o que almejamos encontrar foi apenas e só lado nenhum. Medir um povo é falar das suas gentes, dos seus costumes, da tradição, desta e daquela história, deste e daquele conto, desta e daquela figura. Medir um povo é falar do que sente e sentir o pulso ao que se fala. É perceber quanto coração há em cada pensamento, em cada decisão, em cada encruzilhada. Medir um povo é saber olhá-lo com olhos de quem vê mais com o coração e menos com a razão.

Mas medir um povo também é conhecer-lhe o futuro, conhecer-lhe o pensamento de amanhã, saber lê-lo na sua essência, na sua plenitude – como se isso fosse possível. É ser utópico e querer que o todo se levante como um, é ser sonhador o suficiente para ver a luz que teima em não aparecer. Medir um povo é olhá-lo, percebê-lo, respeitá-lo. É saber quem ele é, mas também para onde vai. É saber identificar os pontos que o unem mais do que os que o separam. É saber remar em esforço quando o mar aperta, mas ter ainda uma réstia de força que rema ainda mais desenfreadamente quando a verdadeira tempestade vem. Saber medir um povo é saber que quando há tempestade não importa que margem do rio alcançamos, desde que a alcancemos.

E ser de um povo? Ser de um povo é saber medir-me primeiro. É saber o que posso e o que não posso fazer. É saber o que devo e o que não devo fazer. É perdoar quando me magoam, e pedir perdão quando magoo. É dizer que sim ao meu próximo, é dizer que não à miséria do meu irmão. É ver passado, agir presente e pensar futuro. É ser poeta, actor, engenheiro e agricultor. É ser tudo o que o meu povo necessitar que eu seja.

Somos um povo estranho. Medimos em lume brando mas escaldante tudo o que mexe, tudo o que move. Cozemos literalmente todos os que aparentam ser diferentes. Somos brandos nos costumes, mas duríssimos na vivência. Cheira-me que teremos de mudar a história outra vez. E a ver se desta vez somos do mesmo povo da mesma massa daqueles que descobriram o mundo.

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O Filho da Mãe

E a mãe, aflita, chorava. Via o Seu menino naqueles preparos, com um nada que quase o vestia, com aquele rosto cravado de dor lancinante e aguda, com um gosto envinagrado, pior que o fel. ‘Que fizeste para o mereceres?’ era a pergunta que aquela senhora, cheia de rugas que o sofrimento acentuava cruelmente, fazia. E o choro, meu Deus! O choro e as lágrimas que aquela mulher derramava…autênticos pedaços de alma que os olhos desperdiçavam a cada suspiro de dor que o Filho dava.

À medida que o fim se aproximava, a dor acentuava-se no coração daquela mãe, indecisa  e dividida na escolha da vontade de ter o Filho mais um minuto, ou de lhe desejar esse exacto momento de tempo a menos de sofrimento. E pairando esteve nesta dúvida até ao momento decisivo…sim,  momento da partida. Partiu consumando aquilo que haveria de ser a resposta à necessidade de todo um mundo. Mas era muito peso para aquela mãe. Havia carregado aquela criança no seu ventre e sabia que algo de grande lhe estava destinado… Mas com este fim? Com esta crueldade? Com este preço?

Três dias passaram. Três dias de raiva e angústia dissimulados como só uma mãe o sabe fazer. Três dias de vazio indescritível consubstanciado num sorriso vazio e num olhar gélido que contrastava com a vibrante paixão pela vida que consumia aquela alma.

Mas eis que toda a angústia, toda a raiva, todo o vazio foi quebrado ao terceiro dia. Por uma simples carta que apareceu debaixo da porta. Tinha marcas de vermelho, um vermelho vivo, da cor do sangue que o Filho havia derramado há apenas três dias. A carta carecia de remetente, mas as primeiras linhas deixaram bem claro quem a escrevera, levando a que a incredulidade desse lugar ao choro.

‘Mãe. Sei que passaram apenas três dias. Este era o tempo previamente destinado para que eu pudesse terminar o que aqui vim fazer. Não vivi nem mais, nem menos um dia do que o que estava determinado. Sei que parece cruel, mas a criança que tu carregaste, o miúdo que tu criaste, o homem que te entregaste ao mundo tinha uma missão. E cumpriu-a. Com dor, sofrimento e angústia, não o nego. Mas cumprida até ao último milímetro, tal qual o carpinteiro que corta a peça de madeira na perfeição.

Talvez perguntes se era necessário o sangue? Sim, porque na realidade é ele que purificaria. Talvez perguntes ainda se era necessário o sofrimento? E novamente te respondo que sim, porque é na realidade ela quem sela o compromisso inquebrável da aliança. Talvez acrescentes ainda se era necessário tudo isto? Sim, era. Porque sem ‘isto’ o futuro seria uma miragem infernal, um ainda pior reflexo do passado perdido e cheio de sombras. Sem ‘isto’ não poderia haver o futuro que conhecerás.

Eu vim para trazer esperança. Eu vim para devolver a ligação. Eu vim restabelecer a ordem das coisas. Eu vim e vivi para tudo isto. E hoje posso afirmar-te que o sangue que vês marcado nesta carta sela a aliança que se estabelecer. Uma nova aliança destinada a trazer esperança e um futuro melhor. Uma aliança inquebrável que Pai e Filho estabelecem com todo aquele que acreditar.

Eis que muito ainda está para vir. Eis que muito está ainda por acontecer. Mas te garanto que o que acontecerá ultrapassará em brilho, em beleza e em glória o que já foi. Não porque o que já foi tenha sido mau. Não. Apenas porque o que virá será ainda melhor.

Hoje escrevo-te para te dizer: não chores. Tens aí o teu filho. Quanto a este, está bem entregue: escrevo-te esta carta dos braços do Pai. Ele agradece.’

Lágrimas corriam pelo rosto desta mãe. Mas pela primeira vez em três dias, eram lágrimas de felicidade por ter percebido o porquê. Não que o tenha compreendido na totalidade, mas porque entendeu que o porquê era maior que ela, que a sua casa, que a sua família. E, afinal de contas, quantas mães poderiam afirmar ser mães não de um, mas d’O Filho?

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Onde Estás?

‘Onde estás?’ perguntei eu genuinamente, preso ao facto de não saber a resposta a tão simples pergunta. Mal sabia eu que era esta a primeira pergunta de uma jornada que, de facto, me levaria até ti, mas não sem que antes tivesse de aprender umas ‘certas coisas’ que me querias ensinar. Talvez tenha passado demasiado tempo sem fazer essa pergunta, mas a verdade é que ma colocaste no coração no momento certo, no momento em que sabia que, verdadeiramente, o meu coração estava aberto a ti. Há quem diga que é coincidência. Eu percebo que é mais do que isso. foi uma conjugação divina de divinais factores que divinamente se entrelaçaram para que eu hoje chegasse aqui.

Antes de mais, obrigado pela jornada. Porque tem sido magnífica! Porque tem tido momentos esplendorosos! Porque tem sido cheia de altos e baixos, altos e baixos, altos e baixos! Porque tem tido tanto sabor quanto uma pastilha elástica que nunca mais acaba! Porque tem sido surpreendente, pela maneira como bloqueias e desbloqueias, como te silencias e intervéns, pela forma como te moves como se não houvesse padrão. Sim, já percebi que o teu padrão é bem diferente que o meu, que os teus olhos são em tudo diferentes dos meus, que a tua capacidade de veres passado, presente e futuro é em tudo bem maior que a minha (o facto de viveres nos 3 é uma ajuda…). Também já percebi que tens tudo sob controlo, mesmo quando não parece e eu ando aqui feito doido a queimar os meus próprios nervos. E é por isso que te agradeço pela jornada até aqui. Não porque pense que cheguei ao fim (espero que não!), mas porque tu tens estado desde o princípio, sempre a controlar, sempre a abrir a porta certa e a fechar a outra, sempre a curar as feridas que a vida vai deixando. É mesmo esta a palavra que te descreve: sempre.

Ora, tu decidiste responder à minha pergunta. E bem. Deste-me uma nova jornada cheia de derrotas intercalares, todas elas completadas com vitórias finais esmagadoras. E aproveitaste-te de cada uma dessas derrotas intercalares para fazeres de mim algo melhor, mais cheio, mais capaz, mais próximo. Agora sei que foi por isso que me deste as derrotas: para saber o quão extraordinárias são as vitórias. E no meio de todos os baixos, de todos os altos, foste sempre, de forma metódica, trabalhando o que achavas necessário. E conseguiste. Agora só espero estar à altura do que preparaste. Estou a viver para ver um sorriso nessa tua face.

‘Onde estás?’ perguntei-te eu. Mal sabia eu que estava a preparar-me para descobrir isso de uma forma tão pessoal. Mal sabia eu que estava a um passo de o saber no meu coração. Agora, vamos a isto. Leva-me nessa tua jornada e mostra-me que caminho tens preparado para mim. Porque a seguir ao ‘onde estás?’, virá de certeza o ‘quem Tu és?’. E arrepio-me só de pensar nessa jornada que tens para mim…

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