Archive for category Igreja e Religião

A morte de um regime

Aquilo que se tem passado, primeiro na Tunísia, agora no Egipto (ou Egito, conforme já tenham adoptado, ou não, o AO) leva-me a pensar na importância histórica da morte e queda dos regimes. Quase todos os grandes momentos da história tiveram como pano de fundo o nascimento e a queda de regimes, uns atrás dos outros. Gregos, romanos, nazis, fascistas, comunistas, todos estes e muitos outros se levantaram e caíram, uns com maior estrondo, outros desaparecendo ‘de fininho’. A morte de um regime é a capacidade de o mundo se renovar na sua esfera local. E como o mundo cada vez se move e se renova mais rapidamente, mais rápidos serão os períodos que preenchem o espaço entre regime.

Mas a morte de um regime pode ser uma tremenda oportunidade. Em Portugal foi a porta da democracia e dos direitos individuais que se abriu. No pós Alemanha nazi, foi a porta de uma Europa unida que ficou escancarada à medida que os nossos congéneres alemães se iam regenerando. Por isso creio que este movimento que agora parece grassas no mundo islâmica poderá ser a porta para o aliviar da tensão que cresce entre o Ocidente e o mundo muçulmano desde o 11 de Setembro de 2001. Precisamos de desagravo? Sim, precisamos. Porque o caminho que tem sido trilhado poucas chances tinham senão guiar-nos ao conflito Ocidente democrático/ Mundo islâmico. E acho que já tivemos a nossa quota parte de guerras com génese religiosa na história da humanidade.

Também não vale a pena levantarmos areia: o mundo muçulmano é, por norma, menos tolerante e mais fundamentalista que o ocidental, com alguns resultados que se conhecem. É um mundo que tem feito o Ocidente pagar com juros elevados os erros colonizadores que este cometeu no pós II Guerra. Sim, porque o mundo ocidental, habilmente liderado pelos EUA, jogou com todos e cada um destes países para obter os seus proveitos. E hoje todos pagamos essa factura. E por mais que esse tal mundo islâmico venha a ver, Estado a Estado, a morte do regime, dificilmente veremos esses países com a abertura democrática que caracteriza o Ocidente (salvo algumas excepções). Dificilmente veremos o fim do fundamentalismo islâmico, dificilmente veremos a questão religiosa sair do centro, dificilmente evitaremos o choque de culturas que cada vez mais se acentua.

Esta constatação deve-nos ensinar, a nós, os ocidentais, uma coisa simples. Misturar política e religião não é uma ideia peregrina, pelo contrário. Os únicos elementos religiosos que devem entrar na política são os valores, os princípios, a honestidade, a credibilidade e a verdade. De resto, ‘a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.’ Já chega de cruzamentos explosivos entre Deus no céu (religião) e deus na terra (políticos). Não deram, não dão e nunca darão bom resultado. Porque a religião fez-se para ser vivida e a política para ser independente. E quando misturamos ambos os conceitos, estamos a corromper o papel de ambas na sociedade. Com os resultados que a história já nos contou.

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Papa tudo, Ratzinger!

Nada me move contra o Papa. Temos crenças distintas, discordo da sua actuação nalgumas áreas, não simpatizo especialmente com a sua postura tipicamente germânica, na qual os sorrisos são meros apêndices de imagem de difícil execução. Mas vejo em Bento XVI, embora menos do que no seu antecessor, uma pessoa honesta, verdadeira, digna do meu respeito, apesar do seu por vezes extremo conservadorismo. Até compreendo alguma da histeria dos fiéis, embora não partilhe dela, tendo em conta que as pessoas foram ensinadas que o Papa é uma embaixada de Cristo na Terra, uma espécie de divindidade terrena cuja duração foi ‘esticada’ desde os tempos de Cristo até hoje…

No meio disto tudo há algo que eu sinceramente não percebo. Como já disse, compreendo a emoção/histeria que percorre as vidas dos fiéis, daqueles para os quais o cristianismo visto pela lente católica é modo de vida. Mas não compreendo, aliás, repugna-me a histeria dos pseudo crentes católicos. Gente que não mete os pés numa igreja e que quando vem o Papa é do mais católico que há. Gente que não liga ‘patavina’ aos ensinamentos da religião que ‘professa’, mas que à vinda do Papa se torna católico de todos os costados. É desta hipocrisia que me queixo, não da sincera fé daqueles que a professam com ou sem Papa. E não, não concordo com a fé católica. Enquanto protestante, separam-nos n coisas que dificilmente algum dia nos poderão juntar. Mas concordo ainda menos com estes quantos hipócritas que agora gravitam à volta de Bento XVI e que na Sexta-Feira voltam à vilania e tiranagem do dia-a-dia.

É claro que a visita do Papa lembra-me outras coisas. Lembra-me do tal problema de mediação que separa católicos e protestantes. O Papa é embaixador de Cristo, sem dúvida. Mas não é o único. Eu também o sou. Tu também o és. Há milhares de embaixadores de Cristo no mundo, o que significa que o Sr Bento XVI não tem o exclusivo. Aos olhos de Deus, Ratzinger e Ruben Barradas são dois indivíduos que precisam da mediação de Cristo para serem aceites na Presença de Deus, por intermédio da Sua graça. Embora elogie a dimensão moral do homem Ratzinger, recuso-me a olhar para o mesmo com os olhos de quem olha para uma divindade. Esse olhar guardo-o para Cristo, se me permitem.

Finalizo com uma crítica construtiva. O Papa é uma figura que merece uma recepção de excelência. Devemos recebê-lo, por isso, com o que de melhor temos, e da melhor maneira possível. Mas parece-me estranho que o Estado assuma tão grande percentagem dos gastos, independentemente dos tempos serem, ou não , de crise. O Papa é uma figura de Estado, fruto de ser o Chefe de Estado do Vaticano, mas vem a Portugal em clara missão religiosa. Logo, creio serem excessivos muitos dos gastos que o Estado português assumiu nesta visita, os quais deviam ser suportados pela Igreja. E a divisão até era simples. Nas acções enquanto chefe de estado (encontros com autoridades portuguesas, por exemplo) deveria ser o Estado a cobrir despesas. Em acções de cariz religioso (missas no Terreiro do Paço, Av. Aliados, deslocações, segurança nesses momentos, por exemplo) deveria ser a Igreja a suportar os mesmos custos. Porque o Estado é laico e não professa qualquer religião. Pelo menos no papel…

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