Archive for category Sociedade

Ser ou não ser Charlie.

Os acontecimentos da última quarta-feira tomaram-nos de assalto e causaram um sentimento generalizado de revolta. Independentemente da nossa opinião, ou até do conhecimento (na maioria dos casos, total desconhecimento, diga-se) do trabalho do Charlie Hebdo, todos agimos como se os nossos valores tivessem sido colocados em causa. E foram-no. Numa Europa com muitos defeitos, é possível ver a olho nu duas enormes virtudes, a liberdade e a tolerância. O que aconteceu na quarta-feira atacou não só esses como ainda um outro valor, suporte de grande parte da vida que levamos neste lado do Globo, a segurança.

Por opção, não vou falar da linha editorial do Charlie Hebdon. Sinceramente, considero-a irrelevante para o caso. Nada, neste mundo ou no outro, justifica que homens armados matem indiscriminadamente quem quer que seja. Nada. E recuso-me a coloca um ‘mas’ nesta frase, porque fazê-lêo constitui um perigo imenso. Um ‘mas’ aqui inocentemente colocado é a cedência à chantagem inteligentemente perpetrada através deste terror que nos querer fazer ver o mundo a uma só cor.

Qualquer discussão sobre os limites da liberdade de expressão, de pensamento ou de imprensa deve ser independente de actos como os que ocorreram em Paris. Sim, a liberdade e os excessos que ela provoca e sempre provocou/provocará devem ser discutidos, mas nunca à luz da barbárie, sob pena de estarmos a ceder à linha de pensamento que norteia gente capaz de fazer uma coisa destas. Imaginemos um mundo em que, por cada opinião discordante, se levanta uma AK47. A liberdade e os seus limites devem ser discutidos sem recorrer à natural limitação que estes acontecimentos nos impõe ao raciocínio. Até porque a liberdade, terror e rajadas de metralhadora não parecem ser compatíveis.

Não incorramos no erro de assumir que o bom senso trata do resto. O bom senso é um desafio individual. O meu bom senso não é o seu bom senso, caro leitor. E vice-versa. Achar que tudo se pode resolver nesta base é produto de um certo egocentrismo a que nos impomos, e que crê genuinamente na bondade e superioridade de tudo aquilo em que acreditamos. Não, o meu bom senso, sendo diferente, não é superior ao de ninguém. E acontece que nem tudo aquilo em que creio é verdadeiro e bondoso. Isso prova-se pelo número de vezes que acreditámos piamente em factos, pessoas ou histórias que se vieram a revelar falaciosas ou até maldosas.  Esta margem de erro é algo com o qual temos de aprender a viver e conviver. Há coisas que eu faço que ferem o bom senso de alguns, e o contrário é válido também. Por isso de nada nos vale a assunção de que a liberdade é assunto da esfera desta esfera. Não, a liberdade, enquanto valor colectivo, tem de se sobrepor a esse bom senso, valor individual. O facto de não concordar, de achar idiota, ou até de achar ofensiva a opinião de alguém, não me dá o direito de a silenciar. Dá-me o direito, e às vezes até o dever de a refutar, mas nunca me dá o direito de silenciar seja o que for.

Termino com palavras de uma figura que muito admiro e respeito, e sobre quem convido os leitores a pesquisar e conhecer um pouco da sua história. Martin Niemoller. Pastor luterano, conservador, enganado pelo canto da sereia dos primeiros anos de nazismo que parecia defender um país forte e seguro, tornou-se um dos maiores opositores ao regime nazi da Alemanha de Hitler, facto pelo qual pagou alto preço. A determinado ponto, eis as suas palavras:

“Quando os nazis levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata. Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse”

Eu não sei se sou Charlie. Mas espero que, se algum dia me levarem, ainda por cá haja alguém para protestar.

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Pequenos (e poderosíssimos) Princípios – Esaú

‘Nunca tomes uma decisão permanente como forma de alcançar um bem temporário.’

A vida é uma cedência constante. Seja no casamento, na vida profissional ou nas amizades, saber ceder tornou-se uma arte. E das difíceis. São muitas as vezes em cedemos demais e acabamos reféns de escolhas baseadas em princípios pelos quais nem sequer nos regemos, mas aos quais nos decidimos render. Noutras tantas vezes, somos tão intransigentes e indomáveis de opinião, que nos tornamos impossíveis de suportar.

Como disse, a cedência é uma arte. Da mesma forma como o é andar numa pequena corda, 20m acima do chão, sem cair. Toda a forma de equilíbrio é arte. Saber ceder é arte. Saber ser intransigente também o é. Saber quais as linhas que pisamos e quais as que nunca ultrapassaremos? Pois, também se trata de arte..

Por vezes temos a tendência (humana, diga-se) de tomar decisões com efeitos permanentes ‘só’ porque estas aliviam uma determinada situação de forma temporária e imediata. É o princípio da dor física transposto para a nossa vivência. Quando sentimos dor, a nossa preocupação inicial não é a de saber o porquê, mas sim acabar com a dor, custe o que custar. Na vida, e devido a esse princípio, muitas vezes nos limitamos a ‘tomar analgésicos’, sem procurar saber a raiz da dor da nossa alma. E nesses analgésicos, regularmente, encontram-se concessões que nos aliviam o presente mas hipotecam de forma irremediável o futuro.

Nunca me esqueço da história de Esaú. O cansaço e a fome fizeram-no tomar uma decisão parva. Por causa de um guisado, o Deus de ‘Abraão, Isaque e Esaú’ tornou-se o Deus de ‘Abraão, Isaque e Jacó’. Trocar um benefício permanente para experimentar um alívio temporário tem este resultado: até pode saber bem no momento, até pode contribuir para aliviar a carga no presente, mas essa troca, mais tarde ou mais cedo, encarregar-se-à de nos apagar da História futura. Ou, no limite e na melhor das hipóteses, de nos tornar aquele que personifica na perfeição o papel terrível de ‘viste o que lhe aconteceu? Não cometas o mesmo erro.’ Sinceramente, não creio nenhum de nós queira representar esse papel no palco da nossa História.

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Um último gesto de bondade

Foi aprovado hoje na Bélgica (falta ‘apenas’ baixar à câmara baixa do parlamento belga) um projecto de lei que permite a possibilidade de uma criança em estado terminal e/ou sofrendo de dores físicas insuportáveis, pôr termo à sua vida, de forma assistida, recorrendo àquilo que vulgarmente conhecemos como ‘eutanásia’.

No meu entender, não se trata uma questão de consciência. As questões de moralidade são-no. Morte versus vida não é uma questão de moralidade, por isso nunca pode ser uma questão uma questão da consciência humana. Sim, podem rotular-me como ‘pró-vida’, em todas as suas formas. Acredito piamente que aquilo que está inscrito no nosso código genético é a vida. Dois dos instintos mais básicos que possuímos são de sobrevivência/conservação da vida: o da nossa própria sobrevivência e o da sobrevivência da espécie. Pugnar pelo fim da vida, em que circunstância for, é contrariar esse mesmo código. Nada em nós pede o fim de quem somos, pelo contrário. De alguma forma, fomos desenhados para viver e prolongar essa vivência existência ao máximo, quer em tempo, quer em qualidade da mesma. Quem disser o contrário, acaba por recorrer numa espécie de hipocrisia já que, entre outras coisas, todos os dias respira e se alimenta de água e alimentos que lhe permitem prolongar os seus dias na terra. Na minha humilde opinião, foi para isso que fomos desenhados.

Confesso que me causa alguma confusão que uma entidade laica (o Estado), para quem a morte é o fim de tudo (enquanto entidade laica não lhe é permitido tomar posições de índole religiosa), assuma que a morte (que para o Estado é a passagem para ‘nada’) seja uma solução para o que quer que seja. Daí que a pena de morte, por exemplo, me faça enorme confusão. Que poder tem o Estado para enviar alguém para lugar nenhum? (volto a lembrar: a laicidade é uma característica dos Estados ocidentais – e ainda bem – o que significa que não defende ou professa nenhuma religião, e por isso não pode considerar a morte na perspectiva religiosa). Infelizmente, os Estados têm provado ao longo dos séculos que nem em matérias bem menos complexas se conseguem governar convenientemente, quanto mais nas que envolvem a vida humana em toda a sua complexidade…

Mas voltemos ao tema. A minha opinião é contrária a qualquer morte assistida. Volto a dizer que o nosso projecto inicial implica viver, ou morrer a tentar fazê-lo. Todo o nosso corpo clama por isso, e parece-me ‘ousado’ contariá-lo nessa demanda. É óbvio que a discussão é bem mais complexa. Muitas vezes, o sofrimento e a dor de quem está em situações extremas tornam a vida numa inumana sucessão de suplícios e aflições indescritíveis. Já tive oportunidade de escrever vários pensamentos sobre o tema aqui, fruto de um outro caso concreto, embora diferente. Como escrevi no artigo atrás mencionado, não concebo que alguém, de forma consciente, decida pôr termo à sua própria vida. Assumir o contrário é colocar, no meu entender, a vida num ponto de relativização muito perigoso, da mesma maneira que defender a pena de morte o é. A vida é um valor absoluto, que qualquer sociedade deve defender, seja em que moldes ou circunstâncias for. De outra forma, ficaremos sempre nas mãos daquilo que alguns decidirem que deve ser ‘vida a ser preservada’, e a História mostra-nos o quão perigoso isso é. Vida é vida, sem mas, nem ponto final. O papel de cada um individualmente é proteger a sua e a dos outros, e o papel do Estado é proteger a vida enquanto valor absoluto. Ao falhar nessa defesa, a sociedade falha num dos pilares fundamentais da sua existência.

Perante isto, que dizer de um projecto de lei, aprovado num país civilizado (Bélgica. Não falamos do Afeganistão, do Irão ou do Ruanda. Bélgica, membro da União Europeia, parte do ‘civilizado’ mundo ocidental) que nos pede que aceitemos que as “crianças devem ter o direito de decidir sobre o fim de suas vidas”? (palavras de Gerlant van Berlaer, pediatra na Universidade Ziekenhuis, um dos defensores da proposta) Tantos problemas morais que isto levanta… o que é considerado ‘estado terminal’? E o que tomamos por ‘dores insuportáveis’? Como pode uma sociedade decidir que alguém que não tem maturidade para votar, ou ter responsabilidade financeira ou criminal, possui essa mesma maturidade para decidir pôr termo à sua vida? Como é que matar pode ser ‘um último gesto de bondade’? Como pode ser a morte, em que circunstâncias for, um gesto de bondade? E ainda mais quando se trata de uma criança! Como é isto possível sequer de ser discutido? 

Mas o meu choque não fica por aqui. Talvez esta seja a antecâmara do que esta espécie de ‘humanismo pragmático’ nos reserva para o futuro. Eis que proposta inicial “incluía crianças com doenças mentais”, nas palavras da deputada Els Van Hoof.“ Durante o debate, os defensores da eutanásia falaram sobre crianças com anorexia, crianças que estão cansadas da vida.”  Tal monstruosidade enoja-me. Isto é a sociedade a demitir-se da responsabilidade de dar um futuro e uma esperança a uma geração, por mais ‘cansada da vida’ que ela esteja. São vidas que estão em jogo! São crianças, muitas delas indefesas, incapazes de compreender ainda o que a vida lhes pode reservar. Como pode uma criança decidir que a morte é a sua solução? Como pode um Estado achar que uma criança pode tomar uma decisão desta magnitude? Como pode ser a vida tão pouco importante e relativa para quem defende uma anormalidade destas?

Termino com a prova feliz de que a realidade se encarrega de desmentir muitos dos prognósticos e diagnósticos que nós, seres humanos, fazemos. Com a devida autorização da própria, e ainda que virtualmente, apresento-vos a Mafalda Ribeiro. 30 anos. Portadora de deficiência. Osteogénese imperfeita. Uma condição que a acompanha todos os dias, desde o primeiro. Os médicos deram-lhe 1 dia de vida. Depois corrigiram o diagnóstico para uma semana, no máximo um mês. Passado o primeiro mês, a correcção do diagnóstico já foi temporalmente menos comprometida. ‘Não passa da idade pré-escolar’ disseram. Entretanto, 30 anos correram debaixo da ponte. Mas dizer que a longevidade é tudo, é passar ao lado do mais incrível de tudo isto: o percurso, a história e a energia que emana de um ser humano que tinha todas as razões para já não estar neste mundo. A forma como tem encorajado gente dos 8 (ou até menos) aos 88. Ao pé dela, a ‘coragem’ para sentir dores diminui, as desculpas que a nossa mente tanto gosta de inventar retiram-se, cheias de vergonha de si mesmas, e as probabilidades são largamente desafiadas. Desde que a conheço – já lá vão uns anos – não paro de ser surpreendido. O facto de ter qualidades e defeitos – como todos os seres humanos – facilmente me faz esquecer a sua ‘condição’, não fosse o simples facto de a carregar tantas vezes, e de forma literal, ao colo. As qualidades que mais lhe aprecio? Nunca lhe ouvi uma palavra de lamento, o que é próprio de alguém que sabe que tem um propósito debaixo do céu. Junte-se-lhe o viver num constante desafiar das probabilidades, com a confiança própria de quem o anda a fazer desde o ventre da mãe, e não consegue deixar de lutar para cumprir esse mesmo propósito. Eu e todos os que de alguma forma já fomos tocados pelo seu exemplo, só podemos dar graças pela opção que os pais da Mafalda tomaram há 30 anos. Sem essa sábia e abençoada decisão, hoje não conheceria essa autêntica ‘ode às improbabilidades’, a quem o carinho obriga a que tratemos por Mafaldinha. Que a tua ‘ode às improbabilidades’ seja uma luz que sempre nos relembre que, qualquer que seja o problema ou a questão, a vida em forma de verbo é a resposta. Mesmo depois da morte.

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O que esconde a coadopção?

Em jeito de declaração de intenções, começo este texto dizendo que não o escrevo com o intuito de exprimir a minha opinião sobre a questão da coadopção nos termos em que a mesma tem sido discutida. Aos mais desatentos, lembrar que a coadopção pouco ou nada tem a ver com a adopção de crianças por casais do mesmo sexo, com a qual não concordo. Não quero, porém, dedicar este texto ao esgrimir de argumentos contrários ou favoráveis às duas questões acima mencionadas. Creio que há outras questões bem mais difíceis de digerir em todo este processo, as quais merecem uma reflexão cuidada.

É fácil de ver que as últimas décadas nos reservaram grandes avanços civilizacionais no que toca à aceitação da diferença e à capacidade que a sociedade tem de absorver maneiras de estar e de ser diferentes. Também é perceptível que se tem tornado mais fácil – e ainda bem que assim o é – ser diferente nos dias que correm, e que, em muitos casos, se tornou absolutamente normal primar pela diferença (um ‘quase contra-senso’, eu sei). Mas permitam-me que estranhe também que esta facilidade em ser diferente tenha crescido de braço dado com uma incrível dificuldade em discutir publicamente muitos assuntos. Encontrar um assunto cuja discussão seja pontuada pelo bom senso e ausência de insulto está a tornar-se difícil. Ou seja, é cada vez mais difícil discutir algo (e, por vezes, nem sequer falamos de assuntos fraturantes) sem que se recorra ao insulto e ao desrespeito pela forma de pensar do outro. É como se todos assumíssemos o facto de que somos todos livres, mas fazêmo-lo ao mesmo tempo que pensamos que ‘a tua opinião é diferente da minha e isso faz de ti um pulha, parvo, nada inteligente e estúpido indivíduo sem escrúpulos que não merece sequer o dom de respirar’, passe o exagero.

A forma como a discussão deste assunto da coadopção tem decorrido é um bom espelho disso. Já tive oportunidade de ouvir argumentos para todos os gostos, como, por exemplo, a tentativa de fazer da luta pelos direitos dos homossexuais algo tão importante quanto a luta pelo fim da escravatura. Para lá da fragilidade mais ou menos óbvia de argumentos desta natureza, é de relevar o tom em que muitas das discussões têm ocorrido. Desde humoristas que se escondem atrás do ‘humor’ para dizer coisas que revelam uma total e completa falta de respeito e bom senso, até ‘defensores dos direitos dos homossexuais’ que acusam aqueles que, por razões mais ou menos válidas não concordam com os seus pontos de vista, de ser fascistas e/ou nazis, passando por defensores da moral e dos bons costumes que gostam de usar em público termos pouco ou nada próprios ou respeitosos para com pessoas que não comungam das suas preferências sexuais, temos toda uma panóplia de ‘argumentos’ extraordinários e muito importantes quando se trata de provar que a discussão sem insulto se está a tornar uma enorme miragem na nossa sociedade.

Voltemos à questão da coadopção. Ou melhor, àquilo que se esconde por trás da mesma. Sempre estranhei que quem defende a possibilidade de adopção crianças por casais do mesmo sexo (ou, neste caso, a coadopção), invocando, para esse efeito, a defesa dos direitos e/ou o superior interesse das crianças, se situe em larga maioria na mesma linha de pensamento daqueles que defendem a liberalização do aborto, sendo que alguns o defendem com codições ainda menos restritivas do que aquelas que vigoram no nosso país. Parece que adoptar uma criança é defender o seu interesse superior, mas impedir a sua morte ainda no ventre da mãe já não o é. E não, não estou a comparar a discussão relativa à liberalização do aborto à coadopção. Estou apenas a comparar ‘direitos das crianças’. Sim, porque uma das grandes mentiras da discussão em causa é esta ideia de defesa dos ‘direitos das crianças’. E sim, acho estranho que, aqueles que na situação específica que agora debatemos nos querem fazer crer que ‘apenas’ levam em linha de conta esses mesmos direitos, sejam os mesmos que se esquecem de defender os direitos de crianças ainda mais indefesas. Se a discussão que está em causa verdadeiramente fosse a relativa aos direitos das crianças, então gostaria de ver todos aqueles que defendem a adopção ou coadopção por casais do mesmo sexo, recorrendo ao direito universal de todas as crianças em ter uma família, uma casa, um lar, pudesse vir acompanhada da defesa dos direitos das crianças que, já tendo sido concebidas mas ainda não tendo nascido, também partilham (ou deviam partilhar) dos mesmos direitos.

Serve o argumento acima para expor aquele que me parece ser o grande gigante de pés de barro de toda esta discussão. Correndo o óbvio risco de generalizar, e incorrendo com toda a certeza em alguma injustiça para com casos específicos (que os reconheço que há), a verdadeira questão não está, de facto, centrada nas crianças, e no seu direito a uma família, seja ela de que índole for. A verdadeira questão por trás disto tudo também não está na prossecução da felicidade das crianças, ou na construção do seu futuro. A verdadeira questão por trás de tudo isto resume-se a uma palavra: lobby. E, parafraseando o meu querido amigo e pastor Mário Rui Boto, “é lamentável que se transforme uma questão que tem a ver com os direitos da criança, numa bandeira de direitos de qualquer grupo mais ou menos representativo da sociedade.”

Há que dizer que esta discussão em nada colide com os direitos dos homossexuais. Porque tudo nela tem a ver com as crianças e não com quem as adopta, seja qual for a sua orientação sexual, ao contrário do que nos querem fazer crer. Aliás, na minha singela opinião, falar de ‘direitos dos homossexuais’, é falar de direitos do homem, porque, no meu entender, os tão proclamados ‘direitos dos homossexuais’ não são mais do que os direitos de qualquer ser humano em poder ser ele mesmo, fazendo as suas escolhas e seguindo o seu caminho. A homossexualidade ou heterossexualidade é um assunto individual, e a luta pelos direitos dos homossexuais não é mais que a luta pelo direito à liberdade de todo e qualquer ser humano em poder seguir livremente o seu caminho sem prejudicar a liberdade de quem o rodeia. Infelizmente, o que temos visto em praça pública não é uma luta pelos direitos do homem. É uma luta para que os direitos de uma minoria (no caso os homossexuais) se sobreponham a direitos do homem tão básicos como a liberdade de opinião. E é isso que deve ter a firme oposição de todos aqueles que ainda prezam a liberdade de expressão e opinião, sem recorrer ao ódio ou à violência.

Permitam a minha segunda declaração de interesses. É que, com as devidas diferenças, que são muitas, também eu faço parte de uma minoria, neste caso religiosa. Devido a tal facto, muitas vezes fui e sou olhado com desconfiança, e muitas outras fui rotulado com recurso a estereótipos menos próprios. Vejo também muitos daqueles que ‘crêem’ no mesmo que eu a usarem direitos de outros como capa para defender os seus próprios interesses e direitos, e essa é uma das coisas que mais abomino. E é essa característica que reconheço no lobby gay que me deixa completamente siderado e chocado. Esconder a sua própria agenda por trás de direitos como os das crianças é sintoma de cobardia social. Numa época em que a diferença é, e muito bem, cada vez mais aceite (o que não significa que seja respeitada, como já escrevi acima), faz-me espécie que as agendas não sejam assumidas por inteiro, e que necessitem de ser camufladas desta forma enganadora. Faz-me ainda mais espécie que um grupo de pessoas que tanto tem lutado pela aceitação da diferença (neste caso ao nível da orientação sexual), tenha tanta dificuldade em lidar com a diferença de opinião. E se não sabem do que estou a falar experimentem dizer a alguém do lobby em questão que não concordam com o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ou com a adopção de crianças por parte desses casais, e verão o quão ‘tolerante’, ‘educada’ e ‘civilizada’ a conversa se torna (já o experimentei várias vezes na primeira pessoa, infelizmente).

A história da Humanidade está pejada de injustiças e crimes contra a diferença, e sim, os homossexuais sofreram alguns deles na pele. Mas isso não significa que tenhamos de ser complacentes para com um lobby bem representado, bem posicionado e muito influente na sua tentativa de ‘reconstruir’ um ideal de família que é bem claro desde a fundação do mundo. Parafraseando Marinho Pinto (das poucas vezes em que vou citar este senhor, provavelmente), diria que “seguidamente, para não discriminar os gays e as lésbicas, substituir-se-ão nos documentos oficiais as palavras ‘mãe’ e ‘pai’ pelo termo ‘progenitores’, tal como já se substituíram as palavras ‘paternidade’ e ‘maternidade’ pela neutra ‘parentalidade’.

Se algum orgulho me é permitido, é o de ter crescido num lar que me ensinou que a diferença é para ser vivida e não reivindicada. Fruto disso, nunca produzirei um juízo de carácter ou valor baseado na orientação sexual de alguém. Mas isso não significa braços cruzados para com um lobby que tenta esta intricada e camuflada ‘engenharia social’ (como lhe chamou o mesmo Marinho Pinto) de tratar em suposta igualdade conceitos absolutamente diferentes. E, por mais que respeite aqueles cuja orientação sexual é diferente da minha, não posso pensar como ‘igual’ uma família que não o é. Sim, sei que a afirmação anterior é, nos tempos que correm, de um risco extremo. Mas não quero correr o risco de violar a minha própria consciência e ir esconder-me atrás de uma outra agenda qualquer para dar a minha opinião.

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Velhos do Restelo há muitos, seu palerma!

Somos seres humanos, e isso significa que ansiamos a aprovação alheia. Mas até que ponto essa aprovação é positiva?

Considero que há dois tipos de crítica que podem ser bem melhores que o elogio ou a aprovação. A crítica justa no tempo e lugar certo, e a crítica injusta. A crítica injusta?!?! Sim, essa mesmo. Mas comecemos pela primeira…

Uma crítica justa, no tempo e no lugar certo

Pode ser uma excelente companheira de viagem. Nem sempre quem nos critica quer o nosso mal. Há críticas que são, de facto, justas. E quando essas críticas são feitas na hora certa e nas circunstâncias certas, podem ser excelentes para o nosso crescimento, assim deixemos de lado o nosso orgulho. Convenhamos que há muita gente cuja crítica é justa, mas em timings e/ou lugares completamente desadequados. Acontece. Saibamos também distinguir estas e teremos aí um excelente aliado…

Vamos lá à crítica injusta

Refaço. Não lhe chamarei crítica injusta. Chamar-lhe-ei crítica ressentida. Uma crítica que tem por base, regra geral a utilização de métodos diferentes, e que ataca, também na generalidade, a obtenção de resultados diferentes. Esta crítica é muito metódica, e raramente se esquece de pormenores. É mordaz, desonesta, e tem como pano de fundo um sentimento de inveja, ressentimento (indirecto, não relacionado com a pessoa em questão, mas com aquilo que alcançou) ou ressabiamento. É uma crítica que nada tem de clara, ou construtiva (embora várias vezes se mascare de tal). É uma crítica que não tenta construir nada. É uma crítica que está baseada na premissa ‘eu nunca alcancei, tu também não alcançarás’, mas sem nunca o admitir. Chega a ser dilacerante, porque ataca sem dó nem piedade. Não raras vezes, e quando se apercebe do facto de ainda não ter alcançado os seus propósitos, coloca em causa o coração, as intenções, as motivações, sempre com a intenção de denegrir, de diminuir, de abater.

Mas vamos então a isto. Quem me critica diz mais de mim do que quem me elogia. Vamos pôr isto em português ainda mais corrente para ser claro. Há pessoas a quem devemos agradecer por não nos dirigirem elogios, porque quando isso acontecer é muito mau sinal. Se alguém que representa tudo o que tu não queres te lança um elogio, só há uma de duas hipóteses: ou esse elogio é veneno, ou então estás a aproximar-te demasiado do seu registo. Perante isto? Fugir a sete pés…

Tantas vezes obcecados com os elogios, tardamos em perceber que há críticas que são o maior elogio que nos podem fazer, e que a ausência delas é também um sinal: talvez estejamos a alcançar menos do que achamos. Talvez estejamos a ser menos efectivos do que pensamos. Fazermos algo de relevante e esperar não receber críticas é utópico, e mais do que isso, é sinal de que dependemos mais da aprovação alheia do que devíamos. Colocarmo-nos em linha de tiro e esperar que ninguém dispare é, no mínimo, de uma ingenuidade atroz.

Pensemos nisto. Há quanto tempo não somos criticados? Estaremos nós completamente reféns de elogios e/ou aprovações de gente que não nos é nada? Qual a aprovação que realmente conta para cada um de nós?

Eu confesso que aprecio a coragem dos críticos. Ter a capacidade de falar sem fazer grande coisa é obra. Claro que nenhum deles admite isso em momento algum. Há sempre um feito brutal (dizem eles) que fizeram algures e que para sempre lhes há-de dar a capacidade de comentar e bater em tudo o que mexe. Ainda bem para eles.

Talvez alguns de nós tenhamos de escolher em que cadeira nos sentamos. Lembremo-nos de um facto simples: quantos críticos de algo ficaram na história? Ao velho do restelo, figura mítica do imaginário nacional, há alguém que lhe saiba o nome verdadeiro? Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, a todos estes e a tantos outros sabemos o nome, de todos eles reza a História. O velho do restelo é, apenas e só, o velho do restelo. Sem nome. Sem rosto. Sem nenhum facto relevante relatado nos livros. Um anónimo que a História e os factos se encarregaram de ridicularizar.

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O burro e a zebra (ou a história da crise que tinha as costas largas)

Um amigo uma vez disse-me uma das frases mais memoráveis que me lembro de ter ouvido. ‘Pouco importa se pintas um burro às listas brancas e pretas, de modo a que pareça uma zebra. Lá no fundo, ele sempre será um burro.’

Sejamos concretos. Gente que é mal educada é-o com ou sem crise. Gente que é avarenta, é-o com ou sem crise. Gente mesquinha, mal formada, e cheia de intenções dúbias é-o com ou sem crise. Gente de mau carácter é-o com ou sem crise.

Mas há quem nos esteja a tentar convencer que não, que a crise é que está a causar tudo isto, que a má-educação, que a mesquinhez, que a pequenez são o fruto puro e simples daquilo que estamos a viver. A esses digo-vos que as circunstâncias não inventam a nossa personalidade, apenas fazem vir ao de cima, sem filtro, aquilo que somos na realidade. Para alguns, a crise foi a chuva que dissolveu a tinta que fazia com que burros parecessem zebras. Só que, ao contrário do que era hábito, e por incrível que pareça, parece que isso se tornou aceitável.

É por isso que adoro o facto de, escondidos atrás desta capa, muita gente ser tudo aquilo que enumerei acima, assumindo-o sem pudores. Sempre com o argumento do desespero, das circunstâncias, pronto a ser utilizado quando alguém os confronta. Como se o desespero (admito que relativo, em muitos desses casos) fosse desculpa para todo o tipo de disparate.

Eu bem sei que a externalização de todos os males é bem mais confortável que o assumir de qualquer responsabilidade. É sempre melhor para o ego e mais fácil de conviver com o facto de sermos alheios a todos os males da sociedade. E é isto que me causa frustração e irritação. Os tais mesquinhos, mal formados, mal educados e com mau carácter, são os mesmos que, e sempre ao abrigo desta sua capacidade sobrenatural de proclamar as verdades, parecem querer pulverizar qualquer tipo de esperança, ou de sentimento contrário ao seu pessimismo reinante. Talvez o façam por terem percebido que é esse pessimismo reinante que torna aceitável serem quem são. É como se o burro percebesse que já não precisa de viver pintado de zebra para ser aceite. Não precisa do desconforto de retocar a tinta todas as manhã ao acordar, ou da comichão que a mesma lhe faz em contacto com a pele. Basta-lhe ser burro, e isso garante-lhe o palco que sempre almejou.

Ponho umas moedas valentes em como escrever estas linhas me vai valer mais um chorrilho de críticas de gente a dizer que estou a defender o sistema, o Governo, e tudo quanto é mal deste mundo. Estou certo que vão haver pessoas a conseguir ler nestas linhas o que nelas não está escrito. Sintam-se livres para o fazer, eu convivo bem com isso.

A maior mentira da Humanidade é esta pregação que nos diz que todos os problemas da mesma nos são externos. No dia em que Homem achar que é à sua volta que tudo está mal, e nada há a fazer no seu interior, terminou o nosso esforço de mudança. A mentira, essa, continuará a ecoar por todo o lado. E os burros clamarão alto e bom som: ‘Eu? Mudar? Quem precisa de mudar é o…’

Começa aí o início do nosso fim.

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