O que esconde a coadopção?

Em jeito de declaração de intenções, começo este texto dizendo que não o escrevo com o intuito de exprimir a minha opinião sobre a questão da coadopção nos termos em que a mesma tem sido discutida. Aos mais desatentos, lembrar que a coadopção pouco ou nada tem a ver com a adopção de crianças por casais do mesmo sexo, com a qual não concordo. Não quero, porém, dedicar este texto ao esgrimir de argumentos contrários ou favoráveis às duas questões acima mencionadas. Creio que há outras questões bem mais difíceis de digerir em todo este processo, as quais merecem uma reflexão cuidada.

É fácil de ver que as últimas décadas nos reservaram grandes avanços civilizacionais no que toca à aceitação da diferença e à capacidade que a sociedade tem de absorver maneiras de estar e de ser diferentes. Também é perceptível que se tem tornado mais fácil – e ainda bem que assim o é – ser diferente nos dias que correm, e que, em muitos casos, se tornou absolutamente normal primar pela diferença (um ‘quase contra-senso’, eu sei). Mas permitam-me que estranhe também que esta facilidade em ser diferente tenha crescido de braço dado com uma incrível dificuldade em discutir publicamente muitos assuntos. Encontrar um assunto cuja discussão seja pontuada pelo bom senso e ausência de insulto está a tornar-se difícil. Ou seja, é cada vez mais difícil discutir algo (e, por vezes, nem sequer falamos de assuntos fraturantes) sem que se recorra ao insulto e ao desrespeito pela forma de pensar do outro. É como se todos assumíssemos o facto de que somos todos livres, mas fazêmo-lo ao mesmo tempo que pensamos que ‘a tua opinião é diferente da minha e isso faz de ti um pulha, parvo, nada inteligente e estúpido indivíduo sem escrúpulos que não merece sequer o dom de respirar’, passe o exagero.

A forma como a discussão deste assunto da coadopção tem decorrido é um bom espelho disso. Já tive oportunidade de ouvir argumentos para todos os gostos, como, por exemplo, a tentativa de fazer da luta pelos direitos dos homossexuais algo tão importante quanto a luta pelo fim da escravatura. Para lá da fragilidade mais ou menos óbvia de argumentos desta natureza, é de relevar o tom em que muitas das discussões têm ocorrido. Desde humoristas que se escondem atrás do ‘humor’ para dizer coisas que revelam uma total e completa falta de respeito e bom senso, até ‘defensores dos direitos dos homossexuais’ que acusam aqueles que, por razões mais ou menos válidas não concordam com os seus pontos de vista, de ser fascistas e/ou nazis, passando por defensores da moral e dos bons costumes que gostam de usar em público termos pouco ou nada próprios ou respeitosos para com pessoas que não comungam das suas preferências sexuais, temos toda uma panóplia de ‘argumentos’ extraordinários e muito importantes quando se trata de provar que a discussão sem insulto se está a tornar uma enorme miragem na nossa sociedade.

Voltemos à questão da coadopção. Ou melhor, àquilo que se esconde por trás da mesma. Sempre estranhei que quem defende a possibilidade de adopção crianças por casais do mesmo sexo (ou, neste caso, a coadopção), invocando, para esse efeito, a defesa dos direitos e/ou o superior interesse das crianças, se situe em larga maioria na mesma linha de pensamento daqueles que defendem a liberalização do aborto, sendo que alguns o defendem com codições ainda menos restritivas do que aquelas que vigoram no nosso país. Parece que adoptar uma criança é defender o seu interesse superior, mas impedir a sua morte ainda no ventre da mãe já não o é. E não, não estou a comparar a discussão relativa à liberalização do aborto à coadopção. Estou apenas a comparar ‘direitos das crianças’. Sim, porque uma das grandes mentiras da discussão em causa é esta ideia de defesa dos ‘direitos das crianças’. E sim, acho estranho que, aqueles que na situação específica que agora debatemos nos querem fazer crer que ‘apenas’ levam em linha de conta esses mesmos direitos, sejam os mesmos que se esquecem de defender os direitos de crianças ainda mais indefesas. Se a discussão que está em causa verdadeiramente fosse a relativa aos direitos das crianças, então gostaria de ver todos aqueles que defendem a adopção ou coadopção por casais do mesmo sexo, recorrendo ao direito universal de todas as crianças em ter uma família, uma casa, um lar, pudesse vir acompanhada da defesa dos direitos das crianças que, já tendo sido concebidas mas ainda não tendo nascido, também partilham (ou deviam partilhar) dos mesmos direitos.

Serve o argumento acima para expor aquele que me parece ser o grande gigante de pés de barro de toda esta discussão. Correndo o óbvio risco de generalizar, e incorrendo com toda a certeza em alguma injustiça para com casos específicos (que os reconheço que há), a verdadeira questão não está, de facto, centrada nas crianças, e no seu direito a uma família, seja ela de que índole for. A verdadeira questão por trás disto tudo também não está na prossecução da felicidade das crianças, ou na construção do seu futuro. A verdadeira questão por trás de tudo isto resume-se a uma palavra: lobby. E, parafraseando o meu querido amigo e pastor Mário Rui Boto, “é lamentável que se transforme uma questão que tem a ver com os direitos da criança, numa bandeira de direitos de qualquer grupo mais ou menos representativo da sociedade.”

Há que dizer que esta discussão em nada colide com os direitos dos homossexuais. Porque tudo nela tem a ver com as crianças e não com quem as adopta, seja qual for a sua orientação sexual, ao contrário do que nos querem fazer crer. Aliás, na minha singela opinião, falar de ‘direitos dos homossexuais’, é falar de direitos do homem, porque, no meu entender, os tão proclamados ‘direitos dos homossexuais’ não são mais do que os direitos de qualquer ser humano em poder ser ele mesmo, fazendo as suas escolhas e seguindo o seu caminho. A homossexualidade ou heterossexualidade é um assunto individual, e a luta pelos direitos dos homossexuais não é mais que a luta pelo direito à liberdade de todo e qualquer ser humano em poder seguir livremente o seu caminho sem prejudicar a liberdade de quem o rodeia. Infelizmente, o que temos visto em praça pública não é uma luta pelos direitos do homem. É uma luta para que os direitos de uma minoria (no caso os homossexuais) se sobreponham a direitos do homem tão básicos como a liberdade de opinião. E é isso que deve ter a firme oposição de todos aqueles que ainda prezam a liberdade de expressão e opinião, sem recorrer ao ódio ou à violência.

Permitam a minha segunda declaração de interesses. É que, com as devidas diferenças, que são muitas, também eu faço parte de uma minoria, neste caso religiosa. Devido a tal facto, muitas vezes fui e sou olhado com desconfiança, e muitas outras fui rotulado com recurso a estereótipos menos próprios. Vejo também muitos daqueles que ‘crêem’ no mesmo que eu a usarem direitos de outros como capa para defender os seus próprios interesses e direitos, e essa é uma das coisas que mais abomino. E é essa característica que reconheço no lobby gay que me deixa completamente siderado e chocado. Esconder a sua própria agenda por trás de direitos como os das crianças é sintoma de cobardia social. Numa época em que a diferença é, e muito bem, cada vez mais aceite (o que não significa que seja respeitada, como já escrevi acima), faz-me espécie que as agendas não sejam assumidas por inteiro, e que necessitem de ser camufladas desta forma enganadora. Faz-me ainda mais espécie que um grupo de pessoas que tanto tem lutado pela aceitação da diferença (neste caso ao nível da orientação sexual), tenha tanta dificuldade em lidar com a diferença de opinião. E se não sabem do que estou a falar experimentem dizer a alguém do lobby em questão que não concordam com o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ou com a adopção de crianças por parte desses casais, e verão o quão ‘tolerante’, ‘educada’ e ‘civilizada’ a conversa se torna (já o experimentei várias vezes na primeira pessoa, infelizmente).

A história da Humanidade está pejada de injustiças e crimes contra a diferença, e sim, os homossexuais sofreram alguns deles na pele. Mas isso não significa que tenhamos de ser complacentes para com um lobby bem representado, bem posicionado e muito influente na sua tentativa de ‘reconstruir’ um ideal de família que é bem claro desde a fundação do mundo. Parafraseando Marinho Pinto (das poucas vezes em que vou citar este senhor, provavelmente), diria que “seguidamente, para não discriminar os gays e as lésbicas, substituir-se-ão nos documentos oficiais as palavras ‘mãe’ e ‘pai’ pelo termo ‘progenitores’, tal como já se substituíram as palavras ‘paternidade’ e ‘maternidade’ pela neutra ‘parentalidade’.

Se algum orgulho me é permitido, é o de ter crescido num lar que me ensinou que a diferença é para ser vivida e não reivindicada. Fruto disso, nunca produzirei um juízo de carácter ou valor baseado na orientação sexual de alguém. Mas isso não significa braços cruzados para com um lobby que tenta esta intricada e camuflada ‘engenharia social’ (como lhe chamou o mesmo Marinho Pinto) de tratar em suposta igualdade conceitos absolutamente diferentes. E, por mais que respeite aqueles cuja orientação sexual é diferente da minha, não posso pensar como ‘igual’ uma família que não o é. Sim, sei que a afirmação anterior é, nos tempos que correm, de um risco extremo. Mas não quero correr o risco de violar a minha própria consciência e ir esconder-me atrás de uma outra agenda qualquer para dar a minha opinião.

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Porque a minha vida também é Benfica

Não tenho por hábito escrever sobre futebol. O que é estranho, dado o gosto que tenho pela coisa. Aliás, no que toca a futebol, confesso-me ‘marcopauliano’, no sentido em que tenho dois amores: o próprio jogo (que é qualquer coisa de soberbo, aqui ou na conchichina) e o Benfica. O jogo em si desperta-me emoções, mesmo que se trate do Irão-Eslovénia, ou de um ‘excitante’ Ilhas Virgens-Aruba. O Benfica é um caso diferente. Por mais desiludido ou descrente que esteja, dou por mim, na rua, a puxar por um rapaz que esteja a jogar ao berlinde, ‘só’ porque ele tem vestida a camisola do Glorioso.

Pensei se deveria escrever hoje. Como disse anteriormente, opto por não escrever sobre futebol, tema apaixonante e fracturante (prefiro coisas mais calmas, como a religião…), e que já tem gente que chegue a escrever (e bem!) sobre ele. Ainda assim, acompanho a blogosfera, vivo a paixão, a emoção, vou ao Estádio quando tenho possibilidades disso (infelizmente, menos vezes do que gostaria), vibro com as vitórias, sofro com as derrotas. Já chorei, ri, já me deitei no chão em desespero, já saltei até não puder mais. Já chamei nomes ao árbitro e a jogadores adversários, já chamei nomes a jogadores do meu (sim, também é meu) Benfica. Já vi o Benfica a perder (muitas vezes), a ganhar (menos vezes), a conseguir resultados que ninguém esperava (para o bem e para o mal), e agora até já posso dizer que vi o Benfica numa final europeia (os meus 6 anos à data da última final não me permitem lembrar do jogo de ’90…).

Por tudo o que listei acima, digo com confiança que sou do Benfica. E com ainda mais confiança digo que sou cada vez mais do Benfica. ‘Doença’ benigna, paixão que o meu avô materno me deixou como herança, logo a mim, que nasci numa casa onde não se apreciava muito futebol. Lembrar-me da primeira recordação Benfiquista que tenho (o 1-3 em Highbury Park, que vi na casa do meu tio Paulo), lembrar-me do 3-6 em Alvalade (que vi na casa da minha madrinha, rodeado de sportinguistas…), lembrar-me do primeiro dia em que fui à Antiga Luz ver o Benfica (um 0-0 contra o Boavista, com 80 mil pessoas no Estádio e um ambiente que ainda hoje não consigo descrever), lembrar-me do sofri na temporada passada quando o fiscal de linha (que estava à minha frente, literalmente…) se ‘esqueceu’ de que tinha visto o Maicon em fora-de-jogo, e decide entregar o título aos srs de azul. Lembrar-me até do que me custou a dormir no sábado passado, ou da falta de força que senti ontem quando o Ivanovic fez ‘aquilo’. Lembrar-me de tudo é lembrar-me que sou do Benfica, não porque o Benfica ganha, mas porque o Benfica é o Benfica. E por mais que tente explicar isso a quem não é do Benfica ou não gosta de futebol, não o consigo. 

Ontem sofri mais uma vez. Já tinha sofrido no Sábado. Já tinha sofrido na segunda anterior. Mas, e quando o árbitro apitou, de uma coisa só me lembrei: sou do Benfica. E, como diz o hino, ‘isso me envaidece’. Não me interessa que perca nos descontos, seja goleado, goleie, ou até que ganhe a Liga dos Campeões. Sou do Benfica. E isso não depende dos estados de espírito, de alma, dos momentos, das vitórias ou das derrotas. Sou do Benfica. Isso não retira a lucidez para ver o que é feito de bom e de mau, os erros estratégicos, empresariais, ou até desportivos. Mas, no final das contas, sou do Benfica.

E porque sou um homem de fé, acredito piamente que aquilo que nos aconteceu este ano, ser-nos-à devolvido com juros. Se for para o ano, em pleno Estádio da Luz, com 65 mil gargantas em delírio, e mais uns quantos milhões do lado de fora do estádio, tanto melhor. E não sei se não vou começar a mexer os meus cordelinhos junta da Providência para que isso aconteça. Seria épico, e um prémio justo depois do sofrimento que este ano nos foi reservado.

Uma última palavra para os que me lêem e dizem que ‘a vida é mais do que futebol’. É-o, sem dúvida. Mas também é futebol. E é por isso que continuarei a alegrar-me com as vitórias, a chatear-me com as derrotas, e até reservo para mim o direito de chorar numa que seja mais dura de aceitar (como ontem). A minha vida não é futebol, é um facto, mas não deixo de ter um bom cantinho dela reservado para este fenómeno. Um cantinho onde mora essa paixão que o meu avô (saudades) me deixou. Obrigado avô. Obrigado Benfica.

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Relvas foi-se.

Basta dar uma vista de olhos às reacções (especialmente às que ocorreram fora do âmbito político-partidário), para se perceber que a demissão de Miguel Relvas é uma boa notícia para o país. O alívio generalizado é apenas a prova final de que Miguel Relvas era um prego cravado demasiado fundo e há demasiado tempo neste Governo, e contribuiu muito para o seu desgaste e descredibilização.

Quase todos os Governos têm este fetiche inexplicável de chamar a si um representante da sabujice e da subida a pulso à custa de jogos e interesses político-partidários. Miguel Relvas era quem detinha essa pasta neste Governo (como já havia acontecido com alguns governos e, curiosamente, na mesma pasta). Saindo ele, resta-nos saber se teremos novo prémio dado a um dos ‘meninos’ das máquinas partidárias (Jorge Moreira da Silva, por exemplo), ou se definitivamente, teremos o advento da competência.  

Bem sei que a pasta em questão (assuntos parlamentares) não é uma pasta central da governação. Não lida directamente com as matérias mais sensíveis, e tem, por isso, um mais dependente de questões laterais à governação da pasta, e relativas ao Governo em geral, do que à governação da pasta propriamente dita. No entanto, e tendo em conta o historial da mesma, aguardo com expectativa quem a ocupará neste momento pós-Relvas. Como disse anteriormente, se a opção recair num dos ‘meninos’, temo que se repita a fórmula Relvas e tenhamos o maior dos sabujos à frente da pasta. Espero para ver, na expectativa de que a competência ainda valha alguma coisa neste país.

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Velhos do Restelo há muitos, seu palerma!

Somos seres humanos, e isso significa que ansiamos a aprovação alheia. Mas até que ponto essa aprovação é positiva?

Considero que há dois tipos de crítica que podem ser bem melhores que o elogio ou a aprovação. A crítica justa no tempo e lugar certo, e a crítica injusta. A crítica injusta?!?! Sim, essa mesmo. Mas comecemos pela primeira…

Uma crítica justa, no tempo e no lugar certo

Pode ser uma excelente companheira de viagem. Nem sempre quem nos critica quer o nosso mal. Há críticas que são, de facto, justas. E quando essas críticas são feitas na hora certa e nas circunstâncias certas, podem ser excelentes para o nosso crescimento, assim deixemos de lado o nosso orgulho. Convenhamos que há muita gente cuja crítica é justa, mas em timings e/ou lugares completamente desadequados. Acontece. Saibamos também distinguir estas e teremos aí um excelente aliado…

Vamos lá à crítica injusta

Refaço. Não lhe chamarei crítica injusta. Chamar-lhe-ei crítica ressentida. Uma crítica que tem por base, regra geral a utilização de métodos diferentes, e que ataca, também na generalidade, a obtenção de resultados diferentes. Esta crítica é muito metódica, e raramente se esquece de pormenores. É mordaz, desonesta, e tem como pano de fundo um sentimento de inveja, ressentimento (indirecto, não relacionado com a pessoa em questão, mas com aquilo que alcançou) ou ressabiamento. É uma crítica que nada tem de clara, ou construtiva (embora várias vezes se mascare de tal). É uma crítica que não tenta construir nada. É uma crítica que está baseada na premissa ‘eu nunca alcancei, tu também não alcançarás’, mas sem nunca o admitir. Chega a ser dilacerante, porque ataca sem dó nem piedade. Não raras vezes, e quando se apercebe do facto de ainda não ter alcançado os seus propósitos, coloca em causa o coração, as intenções, as motivações, sempre com a intenção de denegrir, de diminuir, de abater.

Mas vamos então a isto. Quem me critica diz mais de mim do que quem me elogia. Vamos pôr isto em português ainda mais corrente para ser claro. Há pessoas a quem devemos agradecer por não nos dirigirem elogios, porque quando isso acontecer é muito mau sinal. Se alguém que representa tudo o que tu não queres te lança um elogio, só há uma de duas hipóteses: ou esse elogio é veneno, ou então estás a aproximar-te demasiado do seu registo. Perante isto? Fugir a sete pés…

Tantas vezes obcecados com os elogios, tardamos em perceber que há críticas que são o maior elogio que nos podem fazer, e que a ausência delas é também um sinal: talvez estejamos a alcançar menos do que achamos. Talvez estejamos a ser menos efectivos do que pensamos. Fazermos algo de relevante e esperar não receber críticas é utópico, e mais do que isso, é sinal de que dependemos mais da aprovação alheia do que devíamos. Colocarmo-nos em linha de tiro e esperar que ninguém dispare é, no mínimo, de uma ingenuidade atroz.

Pensemos nisto. Há quanto tempo não somos criticados? Estaremos nós completamente reféns de elogios e/ou aprovações de gente que não nos é nada? Qual a aprovação que realmente conta para cada um de nós?

Eu confesso que aprecio a coragem dos críticos. Ter a capacidade de falar sem fazer grande coisa é obra. Claro que nenhum deles admite isso em momento algum. Há sempre um feito brutal (dizem eles) que fizeram algures e que para sempre lhes há-de dar a capacidade de comentar e bater em tudo o que mexe. Ainda bem para eles.

Talvez alguns de nós tenhamos de escolher em que cadeira nos sentamos. Lembremo-nos de um facto simples: quantos críticos de algo ficaram na história? Ao velho do restelo, figura mítica do imaginário nacional, há alguém que lhe saiba o nome verdadeiro? Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, a todos estes e a tantos outros sabemos o nome, de todos eles reza a História. O velho do restelo é, apenas e só, o velho do restelo. Sem nome. Sem rosto. Sem nenhum facto relevante relatado nos livros. Um anónimo que a História e os factos se encarregaram de ridicularizar.

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O burro e a zebra (ou a história da crise que tinha as costas largas)

Um amigo uma vez disse-me uma das frases mais memoráveis que me lembro de ter ouvido. ‘Pouco importa se pintas um burro às listas brancas e pretas, de modo a que pareça uma zebra. Lá no fundo, ele sempre será um burro.’

Sejamos concretos. Gente que é mal educada é-o com ou sem crise. Gente que é avarenta, é-o com ou sem crise. Gente mesquinha, mal formada, e cheia de intenções dúbias é-o com ou sem crise. Gente de mau carácter é-o com ou sem crise.

Mas há quem nos esteja a tentar convencer que não, que a crise é que está a causar tudo isto, que a má-educação, que a mesquinhez, que a pequenez são o fruto puro e simples daquilo que estamos a viver. A esses digo-vos que as circunstâncias não inventam a nossa personalidade, apenas fazem vir ao de cima, sem filtro, aquilo que somos na realidade. Para alguns, a crise foi a chuva que dissolveu a tinta que fazia com que burros parecessem zebras. Só que, ao contrário do que era hábito, e por incrível que pareça, parece que isso se tornou aceitável.

É por isso que adoro o facto de, escondidos atrás desta capa, muita gente ser tudo aquilo que enumerei acima, assumindo-o sem pudores. Sempre com o argumento do desespero, das circunstâncias, pronto a ser utilizado quando alguém os confronta. Como se o desespero (admito que relativo, em muitos desses casos) fosse desculpa para todo o tipo de disparate.

Eu bem sei que a externalização de todos os males é bem mais confortável que o assumir de qualquer responsabilidade. É sempre melhor para o ego e mais fácil de conviver com o facto de sermos alheios a todos os males da sociedade. E é isto que me causa frustração e irritação. Os tais mesquinhos, mal formados, mal educados e com mau carácter, são os mesmos que, e sempre ao abrigo desta sua capacidade sobrenatural de proclamar as verdades, parecem querer pulverizar qualquer tipo de esperança, ou de sentimento contrário ao seu pessimismo reinante. Talvez o façam por terem percebido que é esse pessimismo reinante que torna aceitável serem quem são. É como se o burro percebesse que já não precisa de viver pintado de zebra para ser aceite. Não precisa do desconforto de retocar a tinta todas as manhã ao acordar, ou da comichão que a mesma lhe faz em contacto com a pele. Basta-lhe ser burro, e isso garante-lhe o palco que sempre almejou.

Ponho umas moedas valentes em como escrever estas linhas me vai valer mais um chorrilho de críticas de gente a dizer que estou a defender o sistema, o Governo, e tudo quanto é mal deste mundo. Estou certo que vão haver pessoas a conseguir ler nestas linhas o que nelas não está escrito. Sintam-se livres para o fazer, eu convivo bem com isso.

A maior mentira da Humanidade é esta pregação que nos diz que todos os problemas da mesma nos são externos. No dia em que Homem achar que é à sua volta que tudo está mal, e nada há a fazer no seu interior, terminou o nosso esforço de mudança. A mentira, essa, continuará a ecoar por todo o lado. E os burros clamarão alto e bom som: ‘Eu? Mudar? Quem precisa de mudar é o…’

Começa aí o início do nosso fim.

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Portugal escrito com C!

Este é o país onde conhecer alguém na Segurança Social é sinónimo de ver um assunto resolvido em tempo recorde, ou de diminuir em várias vezes o tempo de espera num atendimento ao publico. É também o país onde alegremente se faz a pergunta ‘quer factura’. E ainda mais impressionante é o facto de ser o país onde a nossa resposta é, tantas vezes, ‘não, não é necessário’.

Este é o país onde 25€ pagos à pessoa certa torna possível que um chaço velho passe alegremente na inspecção periódica obrigatória, mesmo que nao tenha um mínimo de condições para circular. É também o país onde um ‘conhecimento’ numa faculdade pública consegue colocar um aluno externo num curso onde não há vagas, ou onde um professor diz a um aluno, no final de um ano lectivo, já depois de ter distribuído as notas, ‘porque não me disse que éramos parentes?’ Também é neste rectângulo lindo plantado à beira-mar que todos conhecemos trabalhadores que exercem as suas funções ilegalmente, sem estarem colectados na Segurança Social. Deduzo que muitos deles daqui a alguns anos se queixem que trabalharam 40 anos e que recebem pensões baixíssimas, ou então serão os mesmos que se queixarão amanhã de não terem qualquer protecção social.

 Este é o país onde alguém que engana uma pessoa é um ladrão, vigarista e criminoso, mas onde alguém que engana o Estado (fugindo aos impostos, contribuindo para a economia paralela, entre outros exemplos) é, e passo a citar ‘um gajo esperto’. Este é o jardim onde ter um vizinho numa repartição de finanças, um familiar que trabalha num hospital, ou um amigo numa loja do cidadão garante um atendimento (isto para não falar noutros benefícios…) ‘ligeiramente’ mais rápido do que ao resto do comum dos mortais. 

Portugal é o país onde um concurso público para a admissão de alguém pode ser contornado por laços familiares que, obviamente falam mais alto. Um escândalo, gritam uns, excepto quando nos toca a nós o beneficio em causa.

Isto desculpa o desgoverno? Não. Mas explica-o. Digam o que disserem, os nossos governantes não são mais que o reflexo ampliado do país que temos.

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O alvo, a flecha e o atirador

A vida é assim mesmo. Encontrarmo-nos e desencontrarmo-nos. Achar que ‘estamos lá’, cairmos em nós mesmos e ver que afinal estamos, longe, longe, longe. Fazer pontaria a um alvo e perceber, no exacto momento antes de disparar a flecha, que estamos a apontar para o alvo errado. A vida é muito isto. E quem ousar dizer o contrário… pois bem, possivelmente ainda não viveu a vida na sua plenitude. 

A realidade é vivemos a nossa vida a achar que nos conhecemos profundamente, que sabemos em exatidão quem somos. Talvez poucas coisas estejam mais erradas que esta. Sim, conhecemos alguns padrões de resposta a muitos dos desafios que nos são colocados no dia a dia, mas a crua verdade é que viveremos sempre na descoberta de quem somos verdadeiramente, onde nos encaixamos, onde está a nossa identidade. E agora pergunto: quem disse que isso é uma má noticia? A vida é muito mais do que o simples acto de escolher um alvo, um objectivo, e atirar a ele, e é também muito mais do que a certeza de quem somos. Ou melhor, de quem achamos ser.

A grandeza do ser humano conta-se nisto: uma busca incessante, não raras vezes esmagadora, de quem sou, da minha identidade. E aquilo a que muitas vezes chamamos epifania, nada mais é que o choque frontal com a realidade que já conhecemos na essência. Verdadeiramente, a nossa essência sabe quem somos, mas o nosso intelecto e a nossa razão não o sabem.

Resta-nos a esperança, a expectativa, de um dia sabermos exactamente quem somos. Chamem-me negativista, mas creio que esse dia terreno nunca chegará para nenhum de nós. Porque não é suposto que esse dia venha alguma vez a acontecer. A vida não trata de conhecermos quem somos na plenitude, mas sim daquilo que vamos conhecendo de nós mesmos no intervalo de tempo que separa o dia do nosso nascimento do dia da nossa morte. Ao contrário do que muitas vezes achamos, o mais importante não é o alvo, nem o atirador, nem o mecanismo de propulsão da flecha, nem a própria flecha. O importante, o desafiante, o incrivelmente difícil, mas também inacreditavelmente recompensador, é todo o caminho que faremos desde o momento em que somos lançados, até ao momento em que batemos no alvo. E se é verdade que a maioria de nós tem já uma boa parte dessa trajectória feita, também o é o facto de que ainda todos vamos a tempo de desfrutar de tudo o que nos falta percorrer até ao famoso alvo.

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