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A rua da geração à rasca

Geração à rasca é um nome ‘interessante’. Uma geração qualificada (quem dizia que o problema do país era a falta de qualificação?), que tem as balas, mas que parece não ter armas para responder ao actual estado de coisas. Uma geração que insiste em provar, naquele sítio mítico a que chamamos de ‘o estrangeiro’, que tem capacidade e qualidade para ser a geração mais bem preparada das últimas fornadas. Ao mesmo tempo uma geração que tem de recorrer maioritariamente ao recibo verde e ao trabalho temporário como forma de subsistência.

Há quem diga que é uma geração acomodada e até um pouco mimada. Provavelmente isso será verdade. Mas não justifica tudo. Até porque o incentivo para que essa geração fosse assim foi grande. Disseram a esta geração que deveria estudar, e ela fê-lo, mesmo que tenha recorrido maioritariamente ao financiamento parental para tal efeito. Disseram a esta geração que a política era coisa de crescidos, pois estes têm sempre razão, e foi isso que a geração fez, afastando-se progressivamente da política. Disseram a esta geração que o empreendedorismo é que é, mas esqueceram-se que esse mesmo empreendedorismo precisa de matéria de facto (empreender o quê?), e trataram de desbaratar a riqueza do país num Estado pesado, ineficiente e incapaz de responder às necessidades das pessoas. Disseram a esta geração que teria melhores condições, que poderia consumir mais, que ao semear estariam a certificar-se que colheriam no futuro. Mas afinal, e como prova a actualidade, nada disso foi verdade. Pelo contrário.

E é por todas estas razões e ainda mais algumas que não enumero aqui que creio que o lugar desta geração é na rua, fazendo valer o seu voto de protesto pacífico mas forte e determinado. Se esta é a geração que vem dizer ‘basta’ ao compadrio, aos filhos e enteados, aos arranjinhos, então que essa geração tome o seu lugar. Sim, deve ser, antes de mais, uma geração diligente, uma geração menos mimada e mais activa e interventiva, isso é um facto. Mas não podemos passar a vida a acusar essa geração de nada fazer e depois criticarmos quando alguma coisa é feita.

Sim, temos uma geração mimada e incapaz de enfrentar circunstâncias adversas. Mas não nos esquecemos de uma coisa: fomos nós que criámos essa geração. Foi debaixo dos nossos valores, do sistema que nós fomos criando, que essa geração cresceu. Se alguém tem culpa são aqueles que criaram esta geração para que fosse assim. Está na altura de dar uma sapatada no mimo e no conforto. Se sair para a rua de forma ordeira mas forte for a solução, não vejo porque não o fazer.

Eu confesso que sou parte dessa geração. Uma geração asfixiada, presa num beco sem saída e sem saídas, onde só alguns furões e outros afilhados conseguem ver a luz do sol. Está na altura de o país devolver a esperança a esta geração. E está na altura de esta geração começar a dar o seu contributo para que o país tenha uma nova esperança. Está na altura de uma geração inteira assumir o seu papel de motor de mudança, de factor de crescimento e transformação de mentalidades. A bem de um país que se quer próspero, justo e com esperança num futuro melhor.


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