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Língua, linguagem e… como disse?

A linguagem

Há quem a encare como um formalismo, um somenos quando comparada com o talento ou a capacidade. Há quem lhe reconheça a importância, mas lhe delegue um papel futuro secundário. Há quem diga que ela é tudo, que está em tudo, e que representa todas as coisas. Há quem não diga nada…

…e a ignore por completo, como se ignorar não fosse também linguagem. E há quem diga mal de tudo o que ela é, só pelo que ela é, como se ela pudesse ser menos importante do que realmente é. Há quem não assuma o seu grau de indispensabilidade e há quem viva fixado por ela. Há de tudo, na linguagem…

Linguagem. Porquê linguagem?

De que serve o que eu digo se ninguém me compreende? De que serve a mensagem que eu torno tangível em linguagem se dela não advém qualquer resultado concreto, vertido na compreensão alheia da minha expressão? De que serve ouvir se não compreendo? De que serve a mensagem que colocamos na linguagem se esta não é inteligível por parte de quem a recebe? De que serve? Que erro tremendo, meu Deus, que erro tremendo, falar sem saber se quem ouve percebe…que tempo perdido é escrever sem saber
se quem lê percebe o que queremos dizer com cada caracter que usamos…que desperdício de raciocínio é formulá-lo e verbalizá-lo, sem que disso se traduza a compreensão por parte de uma segunda pessoa. Que desperdício…

Quantas vezes terei entrado, eu e tu, num sítio onde a linguagem parece saída de uma série de anime (desenhos animados) japoneses? Quantas vezes terei ouvido, eu e tu, um discurso imperceptível, cheio de expressões exclusivas a determinado tempo ou a determinado grupo, ou a determinado propósito? Quantas vezes terei, eu e tu, visto a desgraça em que se tornou a graça de um discurso sem nexo, impossível de assimilar?

Isto não me preocuparia se fosse mecânico, piloto de aviões ou economista. Mas preocupa-me porque um dos meus ‘trabalhos’ é que ‘pessoas entendam a mensagem’. Medina Carreira não se preocupará certamente que as pessoas entendam a diferença entre PIB real e PIB nominal. Carlos Sousa não terá no topo das suas preocupações esclarecer quem não sabe a diferença entre uma caixa manual e uma automática. José Mourinho não estará minimamente preocupado que os tiffosi (agora os madridistas) sejam capazes de distinguir entre um trinco e um armador de jogo. E eu? Estou preocupado na possibilidade de alguém não estar a perceber o que estou a dizer?

Adoro música e adoro falar em público. E por isso penso em linguagem. Já vi guitarristas que conseguem ‘falar’ mais do que oradores após 30 minutos de discurso. Considero estas actividades os pontos máximos que distinguem a importância da linguagem. Ambas são acerca da expressão, mas ambas são acerca do público. Nenhuma arte faz sentido sem público, pelo que nenhuma arte pode perder o sentido de linguagem e a possibilidade de esta ser perceptível pelo receptor.

É trágico ver que tanta gente mata a mensagem, quando ela é tão boa. É trágico ver quando a mensagem é maltratada pela linguagem. É ainda mais trágico ver que dizemos uma coisa, mas falamos outra. Mas mais trágico do que tudo isto é ver quem não compreende este ‘fenómeno’ (uau, como se a história da humanidade não fosse toda acerca disto…), quem não compreende que linguagem é ‘só’ essencial, e que sem uma mensagem bem construída, coerente e capaz, é impossível passar qualquer ideia, por mais simples que seja. Pelo menos uma mensagem que as pessoas queiram ouvir. Da última vez que me lembro, era esse o ‘nosso’ objectivo.

‘Ninguém me compreende’ diz-me mais acerca do emissor do que do receptor. O ‘as pessoas não aceitam’ diz-me mais acerca da irrelevância da tua linguagem e da inteligência do teu receptor, do que da incredulidade das pessoas. Alguém me dizia há uns tempos que ‘se quero um bolo com uma forma diferente, tenho de usar outra forma’. Há quem tente mudar a forma do bolo mudando a farinha, mudando os ingredientes, mudando o tempo de cozedura, mudando tudo. Menos a forma. Se quero que o bolo não seja redondo, não posso usar uma forma redonda. La Palisse a trabalhar.

Anos de linguagem incapaz, incorrecta, demasiado técnica e previsivelmente exclusiva. O que nos fecha a todos debaixo de uma espécie de redoma… triste história esta…

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