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A angústia da decisão

Haverá alguém neste mundo que goste de se sentir angustiado? De todas as sensações, é talvez a mais difícil de conseguir lidar com, provavelmente devido à diversidade e imensidão de dor interior que nos causa. Há, na angústia, uma espécie de impotência que nos mói a alma, um assumir de que não está nas nossas mãos mudar a situação, o que muitas vezes nem sequer corresponde à verdade.

A angústia é algo que me invade frequentemente. E há uma multiplicidade de situações que levam a que isso aconteça. Mas há uma angústia, talvez aquela que mais me afecta a alma, pela qual aprendi a desenvolver respeito. E aqui reside a primeira lição que aprendi: aprender a respeitar a angústia. Nem sempre insurgirmo-nos contra a angústia é a coisa a fazer. Muitas das nossas angústias têm de ser respeitadas porque, imagine-se, fazem parte da vida e do nosso crescimento. Dizia eu que aprendi a respeitar esta angústia. Qual? A angústia que antecede algumas das decisões da minha vida. Falo especialmente da angústia que antecede a tomada das grandes decisões.

Sem menosprezar as pequenas decisões que condicionam e contribuem para o nosso dia a dia, há que dizer que existem algumas decisões que são, de facto, transformadoras ao ponto de nos deixarem nervosos, ansiosos e até angustiados. São uma percentagem muito pequena, mínima até, do total de decisões da nossa vida, mas estão lá, prontas para nos deixar num estado de alma que, por vezes, roça o lastimável. Será isto uma má notícia? Tenho pensado em quantos erros já teria cometido se a angústia que antecede uma decisão importante não existisse. Isso significaria que teria tomado muitas dessas decisões de ânimo leve, sem ponderar devidamente, sem pensamento nem planeamento. E se a angústia for aquilo que nos impede de tomar decisões grandes de ânimo leve, apenas por feeling ou percepção momentânea dos factos?

Durante os anos em que estudei na faculdade apanhei muitos tipos de colegas. Desde os ‘marrões’, que respiravam a pensar no curso, até aos amantes da diversão pura e dura, pouco interessados no conhecimento que o curso tinha para oferecer. Mas estes dois tipos, situados no extremo, eram a larga minoria. Pelo meio ‘amontoavam-se’ largas centenas de outros alunos, a quem eu chamaria de ‘normais’. Dentro destes ‘normais’, cedo verifiquei que não era raro haver grande variação de resultados entre cadeiras e matérias, facto que sempre achei interessante. Eram várias as vezes em que alguém que parecia menos à vontade com determinada matéria conseguia melhor nota que aqueles que, dentro da categoria dos ‘normais’, pareciam mais familiarizados com determinada temática. Até que percebi que era quase tudo uma questão de confiança, de falta e excesso. Muitos dos que pareciam menos à vontade ficavam, regra geral, mais assustados e nervosos com o exame, o que redundava numa preparação mais cuidada do mesmo, com mais horas de estudo, maior organização do mesmo, etc. Por outro lado, muitos dos que pareciam mais confiantes, acabavam por descurar, mesmo que inconscientemente, o seu estudo naquela matéria em detrimento de outras disciplinas que, segundo a sua análise, necessitava de mais horas de devoção. Resultado? A maior parte das vezes o estudo acabava por compensar e ultrapassar a confiança. Porquê? Porque o nervosismo e a angústia que se apoderavam dos menos preparados acabava por ser o factor diferenciador que impulsionava muitos deles para mais horas de estudo e preparação.

E se a angústia estiver para o decisor como o nervosismo está para o aluno? E se for a angústia que nos ‘obriga’ a pensar, planear, preparar uma grande decisão? Não será, nesse caso, benéfica para o processo?

Claro que no meio de tudo isto se situa uma angústia diferente. Há situações em que a angústia nos tolda o raciocínio e bloqueia a nossa capacidade de ver, analisar, planear e até pensar. Essa é a angústia paralisante da qual necessitamos de fugir. A angústia pode ser positiva quando é a gasolina que nos obriga a estar preparados para determinada decisão. Mas concebo poucas coisas mais nefastas para o ser humano que deixar-se enlear pela ‘outra’ angústia. Aquela que nos rouba o entendimento e nos leva a um beco sem saída, logo, a decisão por reacção. E se há coisa da qual devemos fugir na vida é das decisões por reacção. Mas isso guardaremos para um dia destes…

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