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A arte do protesto ou a necessidade de agir?

Estranha colagem esta que se tem tentado fazer nos últimos dias. Qual? A de que as pessoas não se devem manifestar e que devem, em lugar de se manifestarem, fazer alguma coisa para mudar o país. Eu, no meu limitado entendimento pós 74, não sabia que só podia escolher entre uma de das coisas, mas tal deve ser resultado de alguma insuficiência de QI da minha parte, contrariamente a quem defende o contrário, esses iluminados entendidos em matérias relativas à sociedade portuguesa.

Não percebo como se pode defender a manifestação como um acto de resignação de quem nada quer fazer. Tem sido essa imagem que se tem tentado colar à tal ‘geração à rasca’. Uns coitadinhos, de certa forma até tansos, que não são capazes, que são gente resignada, que está em casa, de pantufas, à espera que o telefone toque, e que, por isso, não tem o que fazer nem onde cair morta. Ora, será isto verdade? Não me parece, sinceramente. É até intelectualmente desonesto afirmá-lo…

O ponto um é simples: haverá gente esforçada e gente preguiçosa no seio dessa geração rasca. Mas há-os em todas as áreas da vida, pelo que não podemos pegar num pequeno e dizer que este corresponde ao todo. Mais, haverá gente muito pouco informada nesta tal ‘geração à rasca’. Todos nós vimos as entrevistas de alguns que mal sabiam o que ali faziam na manifestação de Sábado. Mas também vimos gente, da esquerda à direita, que sabia perfeitamente o que ali era exigido: um país onde o compadrio desapareça, onde os negócios obscuros sejam uma fantasia de meia dúzia de saudosistas, onde haja esperança e emprego, onde haja lugar à iniciativa privada, em lugar de uma asfixia que leva a que os nossos melhores acabem por sair do país. É isto que é pedido. Será muito? Não creio. Há países que o fazem há anos e estão bem mais à frente que nós.

O ponto dois é ainda mais simples: se o país investiu na formação da geração mais qualificada de sempre, então o mesmo país deve ser suficientemente inteligente para aproveitar aqueles que tão diligentemente formou nos últimos 15 anos. Seria estúpido dizermos que não a esse investimento, dizendo a esta geração que o seu lugar não é este, levando-os a emigrar (algo que está a acontecer sem que o vejamos), levando-os a procurarem outras soluções (o chamado trabalho precário) que nada têm a ver com a sua qualificação e formação. Um dos maiores erros e futuros tormentos de um país é desperdiçar o contributo de toda uma geração. E creio que é isso que, continuando as coisas assim, acabará por acontecer.

O ponto três consegue ser ainda mais simples: existem na nossa sociedade ocidental moderna, 3 formas de agir perante o descontentamento. A esfera particular, em que eu sou diligente naquilo que faço, bom profissional, bom indivíduo, cumprindo as minhas funções e sendo zeloso com os meus deveres (votar, por exemplo, é um deles). Há a esfera social, em que eu contribuo com o meu ‘tijolo’, ajudando e envolvendo-me com outros e ajudando quem necessita, quem tem mais dificuldades, não ficando indiferente àquilo que se passa à minha volta. E há a terceira via, que não invalida nenhuma das 3 anteriores: fazer ouvir a minha voz. E manifestar-me é fazer ouvir a minha voz. Não percebo como isso interfere com o meu profissionalismo, a minha capacidade ou o meu empreendedorismo.

Quem escreve estas linhas tem um trabalho que gosta, fazendo aquilo que ama. Também já trabalhou num call center (mais precário que isso é difícil), trabalhou em campos de futebol, acartando centenas de rolos de relvas e toneladas de terra que alguém tinha de pôr em cima do tractor. Quem escreve estas linhas tem 26 anos e faz parte da geração à rasca, não porque esteja ele próprio à rasca, mas porque vê como uma geração inteira está a ser deitada ao lixo pelo país. Recuso que o meu país seja um lugar onde o meu valor esteja na cor do meu cartão de filiação partidária. Recuso que o meu país seja o harém de uns quantos que têm as ligações certas e o inferno de muitos outros que são empurrados para estágios curriculares e profissionais pagos a ajudas de custo. Recuso que o meu país seja mais adiado pelo tacticismo e calculismo político. E faço-o porque sei que, ao fazê-lo, recuso-me a renunciar ao meu país.


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A rua da geração à rasca

Geração à rasca é um nome ‘interessante’. Uma geração qualificada (quem dizia que o problema do país era a falta de qualificação?), que tem as balas, mas que parece não ter armas para responder ao actual estado de coisas. Uma geração que insiste em provar, naquele sítio mítico a que chamamos de ‘o estrangeiro’, que tem capacidade e qualidade para ser a geração mais bem preparada das últimas fornadas. Ao mesmo tempo uma geração que tem de recorrer maioritariamente ao recibo verde e ao trabalho temporário como forma de subsistência.

Há quem diga que é uma geração acomodada e até um pouco mimada. Provavelmente isso será verdade. Mas não justifica tudo. Até porque o incentivo para que essa geração fosse assim foi grande. Disseram a esta geração que deveria estudar, e ela fê-lo, mesmo que tenha recorrido maioritariamente ao financiamento parental para tal efeito. Disseram a esta geração que a política era coisa de crescidos, pois estes têm sempre razão, e foi isso que a geração fez, afastando-se progressivamente da política. Disseram a esta geração que o empreendedorismo é que é, mas esqueceram-se que esse mesmo empreendedorismo precisa de matéria de facto (empreender o quê?), e trataram de desbaratar a riqueza do país num Estado pesado, ineficiente e incapaz de responder às necessidades das pessoas. Disseram a esta geração que teria melhores condições, que poderia consumir mais, que ao semear estariam a certificar-se que colheriam no futuro. Mas afinal, e como prova a actualidade, nada disso foi verdade. Pelo contrário.

E é por todas estas razões e ainda mais algumas que não enumero aqui que creio que o lugar desta geração é na rua, fazendo valer o seu voto de protesto pacífico mas forte e determinado. Se esta é a geração que vem dizer ‘basta’ ao compadrio, aos filhos e enteados, aos arranjinhos, então que essa geração tome o seu lugar. Sim, deve ser, antes de mais, uma geração diligente, uma geração menos mimada e mais activa e interventiva, isso é um facto. Mas não podemos passar a vida a acusar essa geração de nada fazer e depois criticarmos quando alguma coisa é feita.

Sim, temos uma geração mimada e incapaz de enfrentar circunstâncias adversas. Mas não nos esquecemos de uma coisa: fomos nós que criámos essa geração. Foi debaixo dos nossos valores, do sistema que nós fomos criando, que essa geração cresceu. Se alguém tem culpa são aqueles que criaram esta geração para que fosse assim. Está na altura de dar uma sapatada no mimo e no conforto. Se sair para a rua de forma ordeira mas forte for a solução, não vejo porque não o fazer.

Eu confesso que sou parte dessa geração. Uma geração asfixiada, presa num beco sem saída e sem saídas, onde só alguns furões e outros afilhados conseguem ver a luz do sol. Está na altura de o país devolver a esperança a esta geração. E está na altura de esta geração começar a dar o seu contributo para que o país tenha uma nova esperança. Está na altura de uma geração inteira assumir o seu papel de motor de mudança, de factor de crescimento e transformação de mentalidades. A bem de um país que se quer próspero, justo e com esperança num futuro melhor.


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