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Programa de Governo sem Espinhas – Finanças, o que aí vem

Vamos então continuar esta empreitada, agarrando agora no sítio mais difícil que temos por estes dias: finanças. O Programa de Governo mistura finanças e economia, emprego e administração pública no mesmo item, o que torna difícil o compartimentar destes temas, já que eles estão um pouco dispersos por algumas páginas.

Deixe-me, antes de mais, estabelecer um ponto prévio. O ‘o que aí vem’ deste título é sempre uma suposição, como ficou demonstrado já com o imposto extraordinário que, não fazendo parte do programa de Governo que aqui analisamos, será taxado aos portugueses. Ou seja, isto significa que muito mais ainda poderá vir, especialmente se considerarmos que o programa não é assim tão claro no que toca a medidas de controlo da despesa e aumento da receita.

Bom, mas falemos do Programa propriamente dito. O ponto que serve como tiro de partida desta parte do programa é o claro sentimento de nos ‘livrarmos’ do financiamento externo tão rápido quanto possível. O chamado ‘regresso aos mercados’ não é mais do que tornar a política económica e financeira portuguesa de novo independente. Há também a promessa de que a consolidação orçamental será feita em um terço do lado da receita e em dois terços do lado da despesa, o que seria sinónimo de um grande esforço de redução do Estado. Veremos se tal é exequível.

Reafirma-se o objectivo dos 5,9% de défice no ano 2011, dando a cada Ministro a responsabilidade pelo estrito cumprimento dos limites orçamentais do seu ministério, com penalizações nos orçamento seguinte para aqueles que gastarem mais que o orçamentado. Ou seja, se um ministério gastar mais num exercício orçamental, no próximo verá esse gasto em excesso ser-lhe retirado do orçamento anual, havendo a possibilidade de outras penalizações. Dentro do mesmo exercício orçamental, quando um ministério gastar em excesso, essa verba tem de ser libertada de outro ministério, de forma a garantir o cumprimento do défice.

Em relação a propostas mais concretas na área da despesa, temos:

  • A criação do Conselho de Finanças Públicas, uma entidade independente do Governo que se ocupe da fiscalização das finanças públicas;
  • Alterações à Lei de Finanças Regionais e Locais, onde se estabeleçam, entre outras, novas regras e limites ao endividamento;
  • O fim das Golden Shares (número pequeno de acções detidas pelo Esatdo, e que lhe permite ter poder de veto sobre uma série de decisões consideradas estratégicas na vida de empresas que já foram do Estado, exemplo da PT e da GALP);
  • Venda do BPN até final de Julho de 2011;
  • Venda da EDP, REN e TAP até ao fim do ano (2011);
  • Venda da área da CGD não relativa à actividade bancária (por exemplo, a área dos seguros), com esse valor a ser destinado a financiamento a empresas por parte da CGD. Tornar a CGD mais virada para o crédito a bens e serviços transaccionáveis, para o apoio às exportações e à internacionalização de empresas portuguesas, e o apoio às MPME, empreendedorismo e inovação;
  • Reduzir custos no Sector Empresarial do Estado, aplicar limites ao seu endividamento a partir de 2012, garantir a sua viabilidade financeira través de receitas próprias, o que incluirá revisão das tarifas, de forma a baixar os subsídios (leia-se: aumento das tarifas);
  • Privatizar todas as empresas do Estado cuja função possa ser garantida por privados;
  • Renegociação das Parcerias Público-Privadas e Concessões (Hospitais e Auto-Estradas, por exemplo) que não sejam viáveis para o Estado. Não executar nem pagar as PPP’s antes do visto do Tribunal de Contas;

No que toca ao fisco, há algumas promessas de simplificação dos impostos e de combate à economia paralela (aquela que não entra nas malhas do Fisco), à fraude e à evasão fiscal. O que se propõe-se é isto:

  • Redução das deduções fiscais e dos regimes especiais em sede de IRC (empresas) e IRS (particulares);
  • Alterações no IMI e no IMT, com redução das isenções e actualização do valor dos imóveis para efeitos de tributação;
  • Redução das isenções em sede de IVA, e transferência de categoria no caso de alguns bens, que passarão para a taxa máxima de IVA;

Mas não ficamos ainda por aqui… há uma série de outras propostas, umas mais conhecidas, outras nem por isso. Mas vale a pena ficar a saber quais são…

  • A tão famigerada redução da TSU (Taxa Social Única), de forma a reduzir os custos de produção das empresas. Aqui, o Programa não se compromete com nenhuma percentagem nem data;
  • Simplificação do sistema fiscal, nomeadamente do IRS e IRC, reduzindo o número de escalões, de deduções e de isenções, tornando mais sensível à dimensão agregado familiar, por exemplo;
  • Reembolso do IVA às empresas feito de forma mais célere;
  • Aumento em 30% dos recursos destinados à inspecção na administração tributária (combate à evasão fiscal);
  • Aumento das penas para os crimes fiscais mais graves e julgamento mais célere dos casos de litígio fiscal;
O lado do emprego, onde o programa é vasto, fica para o próximo post. Embora pouco concreto, tem muita ‘carne’ mas também algum osso que é necessário ver com atenção. Até lá…
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O momento é sério (mas a campanha não)

E parece que ainda ninguém se mentalizou disso o suficiente para parar de brincar aos países e aos políticos. São não-sei-quantos-mil-milhões para aqui, mais umas dezenas de milhares de ‘trocos’ para ali, são as tricas e os disparates, a falta de lucidez e a jogada rasteira, tudo reina mas a verdadeira intenção de esclarecer as pessoas.

O que descrevo neste último parágrafo teve o seu expoente máximo no debate Portas-Sócrates a que ontem assisti. O momento da pasta vazia. Um excelente fait-divers feito por um mestre do marketing político, que mais parece preocupado com estas coisas do que com explicar como vai, depois de ter duplicado a dívida pública em míseros seis anos, tirar o país desta situação, caso vença as eleições. O entretanto famoso ‘Luís’ fez bem o seu trabalho, de um PM que deixa o país em posição de pré-bancarrota já não poderemos afirmar o mesmo.

E o problema reside no seguinte: há volta disto tudo parece ser confusão. Temos o maior partido da oposição que claramente tem dificuldades em fazer passar a mensagem de forma séria e credível, fruto de meia-dúzia de tiros nos pés que abriram caminho à delapidação do capital de confiança que Pedro Passos Coelho poderia ter granjeado. Em vez de se concentrar em propostas, perdeu-se nas questiúnculas laterais deste processo e deixou-se enredar na armadilha, indo atrás da politiquice, sem que nada tivesse ganho com isso.

Algumas coisas estranhas desta eleição: alguém conseguiu passara a ideia de que ‘estes ou outros, tantos faz! Eles são todos iguais’, ideia essa que é a antítese da democracia, que se baseia e muito na renovação dos políticos e, se o povo assim o entender, das cores políticas. Mais: alguém conseguiu passar a ideia de que mudar de governo agora será uma aventura pela qual poderíamos vir a pagar caro no futuro. Caros amigos, nós já estamos a pagar e muito caro o aventureirismo que nos lançou numa crise profunda.

E depois de tudo isto há o povo português. O mesmo que diz que sim, que o governo tem de fazer cortes, que o Estado não pode gastar tanto, mas que se revolta sempre que há indícios de corte em alguma coisa. O mesmo povo que veio para a rua em Março, mas que se prepara para ficar tranquilo na sua casa em Junho. O mesmo povo que deveria exigir que houvesse seriedade, verdadeira discussão e propostas de um lado e de outro, castigando aqueles que nada têm proposto até agora.

Da esquerda à direita. De Louçã a Portas e de Sócrates a Passos Coelho. A verdade em vez da demagogia. A discussão no lugar do fait-divers. Está na hora de alguém assumir essa responsabilidade. Sem isso, duvido que consigamos sair desta cepa torta em que nos metemos. O momento é sério. Sejamos sérios nós também…

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