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Não custou nada – Uma reflexão sobre Domingo e o Futuro

Parecia que nunca mais iria acabar, mas eis que já passou. Depois da maior campanha eleitoral de que há memória, depois da maior discussão sobre coisa nenhuma que foi possível ver em séculos de História da nação tuga, eis que os votos estão depositados na urna (que enternecedora coincidência a de decidirmos o futuro da nossa nação depositando o nosso voto numa coisa chamada urna), contados, e os resultados apurados. Teremos, ao contrário do habitual, um Governo empossado em 2 semanas, um Governo maioritário, que previsivelmente durará os 4 anos da legislatura. Resultado: as desculpas esgotaram-se…já não há Governo minoritário, já não há o fantasma da instabilidade governativa, já não há circo político. E agora?

Agora acabaram-se as desculpas. Sim, os últimos anos foram complicados e desastrosos. Desastrosos por várias razões, mas acima de tudo porque tivemos uma boa desculpa para falhar. E para o português, arranjar uma boa desculpa para falhar é o sinónimo a convite para nos ‘espetarmos ao comprido’. Foi isso que tivémos, e foi isso que alcançámos. E agora, depois de termos desbaratado a nossa auto-confiança, depois de termos minado a nossa imagem externa, depois de termos chegado ao ponto de quase ruptura e termos desperdiçado qualquer margem de erro, eis que somos chegados ao momento em que não podemos falhar, dê por onde der. E não podemos falhar na primeira pessoa do plural.

A margem de manobra é nula, economicamente falando. Mas também o é no que toca à sociedade portuguesa. Creio que a nossa sociedade não aguentará mais um falhanço, mais uma machadada na credibilidade, mais cortes e mais sacrifícios sem que não se vejam resultados em 3 ou 4 anos. A realidade é que a sociedade já está saturada de sacrifícios que não nos trouxeram a lado nenhum (relembro que são pedidos sacrifícios aos portugueses desde 2000/2001, ainda no tempo de António Guterres), pelo que começa a exigir resultados e exemplo a quem pede os sacrifícios. E está no seu direito!

Analisando o que se passou no Domingo de forma simplista…

Sócrates foi ‘expulso’ pelos portugueses, que não lhe perdoaram ter falhado na sua acção governativa, especialmente nesta segunda legislativa. O seu discurso de despedida foi digno, mas apenas deu um toque de dignidade a uma derrota muito pesada para ele mesmo e para o seu partido. Cheirou-me sinceramente a lançamento da candidatura ‘Sócrates 2016’…

Passos Coelho estava no momento certo, na hora certa. Talvez tivesse muita dificuldade em ganhar eleições noutras circunstâncias, mas nestas consegui-o com folga, ao contrário do esperado. Tire-se-lhe o chapéu por ter ousado dizer aos portugueses ao que vinha. Sócrates tinha razão em dizer que este era o programa mais liberal e à direita de sempre. Friso o programa, porque o próprio PS já teve acção governativa mais liberal que este programa do PSD. Apenas não o apresentou a votos, limitando-se a colocá-lo em prática quando no Governo. Passos Coelho venceu muito por demérito do PS, é um facto, mas não deixa de ter o mérito de ter aparecido no momento certo. Esperemos que tenha agora o mérito de recuperar o país…

Portas faz-me lembrar um elástico que foi demasiado esticado durante a campanha e acabou por ficar lasso, o que provocou alguma tristeza mesmo depois de ter chegado onde já não chegava há muitos anos. Mais deputados, mais percentagem e mais votos tem de ser considerado um bom resultado. Mas ficou aquém, e isso percebeu-se. Tem a ‘consolação’ mais que previsível de voltar ao poder 6 anos depois, mas desta vez com maior base de apoio popular.

Jerónimo foi igual a si próprio e ao seu PCP. Já ninguém aguenta os discursos de vitória do PCP em noites eleitorais, e foi por isso que no Domingo se ridicularizou um pouco o mesmo discurso. Mas a realidade é que a CDU teve uma subida percentual residual e recuperou um deputado (15 para 16). No entanto, não há razões para a euforia que se viu na Soeiro Pereira Gomes. A não ser que a CGTP já tenha alguma na manga…

Para Louçã, a noite foi o desastre. Os piores receios bloquistas foram concretizados e o BE desceu para metade no número de deputados. O discurso de Louça não foi muito melhor. Lento e pouco claro no assumir da derrota, Louçã sabe que este pode ter sido o tiro no porta-aviões do BE. Aquela amálgama só precisa de um precedente para se desmoronar, precedente esse que os bons resultados eleitorais se encarregaram de desmotivar e esconder nos últimos anos. O BE falhou em assumir-se como alternativa de poder (deveria ter feito esse caminho, mas escolheu um caminho idêntico ao PCP) e os eleitores puniram-no por isso.

E pronto, já passou. Afinal, não houve empate técnico nem ingovernabilidade. Afinal foi tudo bem mais simples do que se poderia, à partida, imaginar. O PSD ganhou, tem maioria larga com o CDS, poderá formar Governo maioritário de coligação, e tem todas as condições para nos tirar do buraco. Agora, haja competência, vontade política e coragem. Redução do peso do Estado, colocação das contas públicas em ordem (sem arranjinhos nem subterfúgios) e aposta no crescimento económico têm de ser as prioridades. Por esta ordem de prioridade.

Daqui a 4 anos voltamos a falar…

P.S. – Uma palavra para a abstenção: faz-me confusão que mais de 40% das pessoas tenham ficado em casa numa altura destas. Descontentamento expressa-se com o voto, e em último caso, com o voto em branco. Ficar em casa e esperar que decidam por nós para depois criticar é que é! O português é, de facto, um bicho estranho. Queixa-se de tudo, mas depois não consegue levantar o rabo para ir votar. E enquanto assim for…

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