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Relvas foi-se.

Basta dar uma vista de olhos às reacções (especialmente às que ocorreram fora do âmbito político-partidário), para se perceber que a demissão de Miguel Relvas é uma boa notícia para o país. O alívio generalizado é apenas a prova final de que Miguel Relvas era um prego cravado demasiado fundo e há demasiado tempo neste Governo, e contribuiu muito para o seu desgaste e descredibilização.

Quase todos os Governos têm este fetiche inexplicável de chamar a si um representante da sabujice e da subida a pulso à custa de jogos e interesses político-partidários. Miguel Relvas era quem detinha essa pasta neste Governo (como já havia acontecido com alguns governos e, curiosamente, na mesma pasta). Saindo ele, resta-nos saber se teremos novo prémio dado a um dos ‘meninos’ das máquinas partidárias (Jorge Moreira da Silva, por exemplo), ou se definitivamente, teremos o advento da competência.  

Bem sei que a pasta em questão (assuntos parlamentares) não é uma pasta central da governação. Não lida directamente com as matérias mais sensíveis, e tem, por isso, um mais dependente de questões laterais à governação da pasta, e relativas ao Governo em geral, do que à governação da pasta propriamente dita. No entanto, e tendo em conta o historial da mesma, aguardo com expectativa quem a ocupará neste momento pós-Relvas. Como disse anteriormente, se a opção recair num dos ‘meninos’, temo que se repita a fórmula Relvas e tenhamos o maior dos sabujos à frente da pasta. Espero para ver, na expectativa de que a competência ainda valha alguma coisa neste país.

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Passos precisos

Nota: Talvez estejam à espera de uma análise tecnocrática (ou tecnocrítica…) das medidas ontem anunciadas. Se é essa a expectativa, desenganem-se. Este é um texto pessoal, de afirmação e compromisso com um país que é meu e do qual me recuso a desistir.

Será que não preferia que estas medidas todas que ontem conhecemos, mais umas quantas que nos últimos 14/16 meses têm sido tomadas, não fossem uma realidade? Será que não preferia que o défice fosse de 3 ou 4%, e não de 9 ou 10%? Será que não preferia que o Estado português não tivesse gasto o que tinha e o que não tinha nos últimos 20 anos? Será que não preferia que os últimos governantes tivessem conseguido pôr na ordem gente como Alberto João Jardim? Será que não preferia que os bancos tivessem emprestado menos do que emprestaram, mas antes que o tivessem feito com critério, sem promessas de crédito fácil? Será que não preferia que Portugal fosse um país onde se responsabilizassem criminalmente aqueles que nos conduziram a uma situação destas, quer na Administração Central, quer na local? Será que não preferia que palavras como supervisão, responsabilidade, critério, seriedade, igualdade, concorrência, transparência, prestação de contas (a verdadeira, não aquela a que assistimos habitualmente) e mérito fossem uma realidade no nosso país?

A resposta é óbvia: preferia. Mas agora sei uma coisa. Ou é isto, ou a bancarrota, o caos, o adeus ao Euro, o adeus à Europa, a impossibilidade e a incapacidade de honrar os compromissos do país. Quanto a vocês não sei, mas eu arregaço as minhas mangas e assumo a minha responsabilidade.

É duro? É difícil? É doloroso? Sem dúvida. Mas não tenho também dúvidas de que é essencial. E aquilo que é essencial não pode ser feito amanhã, ou para a semana. Tem de ser feito hoje. Tem de ser feito agora.

Amanhã teremos o povo (ou serão os sindicatos? Fica a dúvida…) na rua para protestar contra estas e outras medidas. Quanto a mim e à minha família, continuaremos a sair para a rua também. Mas fá-lo-emos para trabalhar, para estudar, para honrar todos os compromissos (sejam impostos, sejam contas mensais), para consumir apenas aquilo que a nossa bolsa pode alcançar. Continuaremos a viver a vida, mesmo quando o mês é demasiado grande para o ordenado que auferimos, fazendo escolhas diárias (a lancheira é o melhor amigo da carteira), e comprando não segundo o desejo, mas segundo a consciência daquilo que podemos, ou não, ter. Continuaremos a dar e a ser generosos com quem tem mais dificuldades. Continuaremos de coração aberto e disponível para receber da generosidade de outros. Continuaremos a fazer a nossa parte, na esperança de que todos (sim, os políticos também) façam a sua.

Por isso, não contem comigo, nem com a minha casa, para o peditório bota-abaixista. As minhas mangas estão arregaçadas, e as minhas escolhas estão feitas. Espero que as vossas também.

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Programa de Governo sem Espinhas – Finanças, o que aí vem

Vamos então continuar esta empreitada, agarrando agora no sítio mais difícil que temos por estes dias: finanças. O Programa de Governo mistura finanças e economia, emprego e administração pública no mesmo item, o que torna difícil o compartimentar destes temas, já que eles estão um pouco dispersos por algumas páginas.

Deixe-me, antes de mais, estabelecer um ponto prévio. O ‘o que aí vem’ deste título é sempre uma suposição, como ficou demonstrado já com o imposto extraordinário que, não fazendo parte do programa de Governo que aqui analisamos, será taxado aos portugueses. Ou seja, isto significa que muito mais ainda poderá vir, especialmente se considerarmos que o programa não é assim tão claro no que toca a medidas de controlo da despesa e aumento da receita.

Bom, mas falemos do Programa propriamente dito. O ponto que serve como tiro de partida desta parte do programa é o claro sentimento de nos ‘livrarmos’ do financiamento externo tão rápido quanto possível. O chamado ‘regresso aos mercados’ não é mais do que tornar a política económica e financeira portuguesa de novo independente. Há também a promessa de que a consolidação orçamental será feita em um terço do lado da receita e em dois terços do lado da despesa, o que seria sinónimo de um grande esforço de redução do Estado. Veremos se tal é exequível.

Reafirma-se o objectivo dos 5,9% de défice no ano 2011, dando a cada Ministro a responsabilidade pelo estrito cumprimento dos limites orçamentais do seu ministério, com penalizações nos orçamento seguinte para aqueles que gastarem mais que o orçamentado. Ou seja, se um ministério gastar mais num exercício orçamental, no próximo verá esse gasto em excesso ser-lhe retirado do orçamento anual, havendo a possibilidade de outras penalizações. Dentro do mesmo exercício orçamental, quando um ministério gastar em excesso, essa verba tem de ser libertada de outro ministério, de forma a garantir o cumprimento do défice.

Em relação a propostas mais concretas na área da despesa, temos:

  • A criação do Conselho de Finanças Públicas, uma entidade independente do Governo que se ocupe da fiscalização das finanças públicas;
  • Alterações à Lei de Finanças Regionais e Locais, onde se estabeleçam, entre outras, novas regras e limites ao endividamento;
  • O fim das Golden Shares (número pequeno de acções detidas pelo Esatdo, e que lhe permite ter poder de veto sobre uma série de decisões consideradas estratégicas na vida de empresas que já foram do Estado, exemplo da PT e da GALP);
  • Venda do BPN até final de Julho de 2011;
  • Venda da EDP, REN e TAP até ao fim do ano (2011);
  • Venda da área da CGD não relativa à actividade bancária (por exemplo, a área dos seguros), com esse valor a ser destinado a financiamento a empresas por parte da CGD. Tornar a CGD mais virada para o crédito a bens e serviços transaccionáveis, para o apoio às exportações e à internacionalização de empresas portuguesas, e o apoio às MPME, empreendedorismo e inovação;
  • Reduzir custos no Sector Empresarial do Estado, aplicar limites ao seu endividamento a partir de 2012, garantir a sua viabilidade financeira través de receitas próprias, o que incluirá revisão das tarifas, de forma a baixar os subsídios (leia-se: aumento das tarifas);
  • Privatizar todas as empresas do Estado cuja função possa ser garantida por privados;
  • Renegociação das Parcerias Público-Privadas e Concessões (Hospitais e Auto-Estradas, por exemplo) que não sejam viáveis para o Estado. Não executar nem pagar as PPP’s antes do visto do Tribunal de Contas;

No que toca ao fisco, há algumas promessas de simplificação dos impostos e de combate à economia paralela (aquela que não entra nas malhas do Fisco), à fraude e à evasão fiscal. O que se propõe-se é isto:

  • Redução das deduções fiscais e dos regimes especiais em sede de IRC (empresas) e IRS (particulares);
  • Alterações no IMI e no IMT, com redução das isenções e actualização do valor dos imóveis para efeitos de tributação;
  • Redução das isenções em sede de IVA, e transferência de categoria no caso de alguns bens, que passarão para a taxa máxima de IVA;

Mas não ficamos ainda por aqui… há uma série de outras propostas, umas mais conhecidas, outras nem por isso. Mas vale a pena ficar a saber quais são…

  • A tão famigerada redução da TSU (Taxa Social Única), de forma a reduzir os custos de produção das empresas. Aqui, o Programa não se compromete com nenhuma percentagem nem data;
  • Simplificação do sistema fiscal, nomeadamente do IRS e IRC, reduzindo o número de escalões, de deduções e de isenções, tornando mais sensível à dimensão agregado familiar, por exemplo;
  • Reembolso do IVA às empresas feito de forma mais célere;
  • Aumento em 30% dos recursos destinados à inspecção na administração tributária (combate à evasão fiscal);
  • Aumento das penas para os crimes fiscais mais graves e julgamento mais célere dos casos de litígio fiscal;
O lado do emprego, onde o programa é vasto, fica para o próximo post. Embora pouco concreto, tem muita ‘carne’ mas também algum osso que é necessário ver com atenção. Até lá…

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A Nobre Trapalhada

Há muitas formas de olhar para a não-eleição de Fernando Nobre para a Presidência da Assembleia da República. Há a perspectiva Passos Coelho, a perspectiva Portas e a perspectiva que o comum dos mortais tem. Mas vamos por partes…

Passos Perdidos

Passos Coelho acumula méritos, erros e ingenuidade no mesmo processo. Teve o mérito de garantir o peso pesado dos independentes, de ter declarado antecipadamente a sua ideia, não só assumindo quem era o candidato, mas anunciando que essa posição estava tomada em virtude de querer aproximar a AR da sociedade civil. Teve ainda o mérito de ter mantido a sua palavra (coisa a que, diga-se, estamos pouco habituados…) ao ter levado até ao fim o seu compromisso que, quer queiramos, quer não, sai vencedor do sufrágio a que submeteu no dia 5. Mas acumula erros, também. Talvez o maior tenha sido o de não incluir Fernando Nobre no acordo de coligação com o CDS. Tendo em conta que a força de equilíbrio no Governo até é acentuada (4-PSD/3-CDS, se excluirmos independentes), não deveria ter sido assim tão difícil convencer Portas a incluir esta questão no acordo. Além do mais, teria evitado toda esta tarde de publicidade negativa ao início de funções deste Governo (se bem que este início tenha sido só da AR) que vimos hoje. Outro erro foi o de não ter uma solução B preparada. Passos Coelho deveria estar preparado para esta questão e ter sido célere na apresentação da mesma. Isso teria um inconveniente (a eleição de quem quer que fosse ficaria tapada pela não-eleição de Nobre nos noticiários), mas permitira que o ‘seguir em frente’ que será necessário agora fosse o mais rápido possível. Ao que parece, tinha gente disponível para isso (Guilherme Silva), e custa a entender como se é apanhado de surpresa numa situação que até era previsível…

A ingenuidade tem o momento alto no anúncio de Nobre como candidato antes das eleições, no facto de esse anúncio ter sido feito em simultâneo com o anúncio de que Nobre era cabeça de lista por Lisboa (Passos deveria ter deixado que o nome de Nobre se consolidasse como candidato a deputado primeiro, e só depois como candidato a Presidente da AR…), agravado pela desastrosa entrevista que veio a público 2/3 dias depois, com Nobre a afirmar que, no Parlamento, só estaria disponível para ser presidente, e não um simples deputado. Além de ter contribuído para que a sua candidatura sofresse uma hostilização social e política escusada, terá começado aí a derrota de hoje. A segunda ingenuidade tem a data de hoje: dá a ideia que Passos acreditava genuinamente que Nobre haveria de ser eleito. Ora, depois de tudo o que ouvimos dizer, era mais ou menos claro que isso não se verificaria. E esta ingenuidade fica colada a um erro já referido atrás: onde está a alternativa?

Portas e o silêncio ensurdecedor

O silêncio (ou pelo menos, a discrição…) de Portas e do CDS são sintomáticos do que se passou: Portas deixou Passos afundar-se sozinho. É uma afundar pequeno, mas só o futuro dirá com que consequências. Ao deixar o PSD sozinho, Portas manteve a palavra, colocou o PSD num local de onde este não conseguiu sair, lembrou ao parceiro de coligação e ao país que o PSD precisa do CDS SEMPRE para que seja possível fazer alguma coisa. A facilidade com que o segundo nome proposto pelo PSD amanhã vai passar é apenas a prova disso mesmo: o CDS não votou Nobre porque não quis, e porque viu aqui uma boa oportunidade.

E o Povo, pá?

E o povo não percebe bem esta trapalhada. Apesar de ser a segunda figura da nação, o Presidente da AR tem pouco peso mediático e real na vida dos portugueses. E talvez isso seja o grande ponto que joga a favor de Passos Coelho: daqui a umas semanas ninguém se lembrará desta trapalhada. E se alguém a relembrar, o PSD e o seu líder poderão sempre puxar do argumento ‘a nossa palavra conta’.

O que o povo, o comum dos mortais pensa, é simples: deixemo-nos de histórias e comece-se a governar. O povo quer Governo de 4 anos. O povo quer que se faça o que for preciso para sairmos desta situação e tão depressa não voltarmos a ela, ou a outra idêntica. O povo quer clareza, menos conversa, menos burocracia, menos palavras e mais acção.

No meio disto tudo, fica no ar uma questão, da qual eu não sou adepto, mas que definitivamente se levanta: e se isto estivesse tudo planeado? Como, pergunta o leitor… e se Passos Coelho soubesse que Nobre não ia, de facto, ganhar, e tudo isto ter apenas servido como forma de o deixar cair, podendo afirmar que cumpriu a sua palavra? É uma hipótese que contraria a minha tese de que ‘não devemos tomar por fruto de uma extraordinária inteligência coisas que podem  apenas ser resultado do acaso’. Mas não deixa de ser uma hipótese. E se o leitor gostar da Teoria da Conspiração, tem aqui o seu argumento da noite…

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Não custou nada – Uma reflexão sobre Domingo e o Futuro

Parecia que nunca mais iria acabar, mas eis que já passou. Depois da maior campanha eleitoral de que há memória, depois da maior discussão sobre coisa nenhuma que foi possível ver em séculos de História da nação tuga, eis que os votos estão depositados na urna (que enternecedora coincidência a de decidirmos o futuro da nossa nação depositando o nosso voto numa coisa chamada urna), contados, e os resultados apurados. Teremos, ao contrário do habitual, um Governo empossado em 2 semanas, um Governo maioritário, que previsivelmente durará os 4 anos da legislatura. Resultado: as desculpas esgotaram-se…já não há Governo minoritário, já não há o fantasma da instabilidade governativa, já não há circo político. E agora?

Agora acabaram-se as desculpas. Sim, os últimos anos foram complicados e desastrosos. Desastrosos por várias razões, mas acima de tudo porque tivemos uma boa desculpa para falhar. E para o português, arranjar uma boa desculpa para falhar é o sinónimo a convite para nos ‘espetarmos ao comprido’. Foi isso que tivémos, e foi isso que alcançámos. E agora, depois de termos desbaratado a nossa auto-confiança, depois de termos minado a nossa imagem externa, depois de termos chegado ao ponto de quase ruptura e termos desperdiçado qualquer margem de erro, eis que somos chegados ao momento em que não podemos falhar, dê por onde der. E não podemos falhar na primeira pessoa do plural.

A margem de manobra é nula, economicamente falando. Mas também o é no que toca à sociedade portuguesa. Creio que a nossa sociedade não aguentará mais um falhanço, mais uma machadada na credibilidade, mais cortes e mais sacrifícios sem que não se vejam resultados em 3 ou 4 anos. A realidade é que a sociedade já está saturada de sacrifícios que não nos trouxeram a lado nenhum (relembro que são pedidos sacrifícios aos portugueses desde 2000/2001, ainda no tempo de António Guterres), pelo que começa a exigir resultados e exemplo a quem pede os sacrifícios. E está no seu direito!

Analisando o que se passou no Domingo de forma simplista…

Sócrates foi ‘expulso’ pelos portugueses, que não lhe perdoaram ter falhado na sua acção governativa, especialmente nesta segunda legislativa. O seu discurso de despedida foi digno, mas apenas deu um toque de dignidade a uma derrota muito pesada para ele mesmo e para o seu partido. Cheirou-me sinceramente a lançamento da candidatura ‘Sócrates 2016’…

Passos Coelho estava no momento certo, na hora certa. Talvez tivesse muita dificuldade em ganhar eleições noutras circunstâncias, mas nestas consegui-o com folga, ao contrário do esperado. Tire-se-lhe o chapéu por ter ousado dizer aos portugueses ao que vinha. Sócrates tinha razão em dizer que este era o programa mais liberal e à direita de sempre. Friso o programa, porque o próprio PS já teve acção governativa mais liberal que este programa do PSD. Apenas não o apresentou a votos, limitando-se a colocá-lo em prática quando no Governo. Passos Coelho venceu muito por demérito do PS, é um facto, mas não deixa de ter o mérito de ter aparecido no momento certo. Esperemos que tenha agora o mérito de recuperar o país…

Portas faz-me lembrar um elástico que foi demasiado esticado durante a campanha e acabou por ficar lasso, o que provocou alguma tristeza mesmo depois de ter chegado onde já não chegava há muitos anos. Mais deputados, mais percentagem e mais votos tem de ser considerado um bom resultado. Mas ficou aquém, e isso percebeu-se. Tem a ‘consolação’ mais que previsível de voltar ao poder 6 anos depois, mas desta vez com maior base de apoio popular.

Jerónimo foi igual a si próprio e ao seu PCP. Já ninguém aguenta os discursos de vitória do PCP em noites eleitorais, e foi por isso que no Domingo se ridicularizou um pouco o mesmo discurso. Mas a realidade é que a CDU teve uma subida percentual residual e recuperou um deputado (15 para 16). No entanto, não há razões para a euforia que se viu na Soeiro Pereira Gomes. A não ser que a CGTP já tenha alguma na manga…

Para Louçã, a noite foi o desastre. Os piores receios bloquistas foram concretizados e o BE desceu para metade no número de deputados. O discurso de Louça não foi muito melhor. Lento e pouco claro no assumir da derrota, Louçã sabe que este pode ter sido o tiro no porta-aviões do BE. Aquela amálgama só precisa de um precedente para se desmoronar, precedente esse que os bons resultados eleitorais se encarregaram de desmotivar e esconder nos últimos anos. O BE falhou em assumir-se como alternativa de poder (deveria ter feito esse caminho, mas escolheu um caminho idêntico ao PCP) e os eleitores puniram-no por isso.

E pronto, já passou. Afinal, não houve empate técnico nem ingovernabilidade. Afinal foi tudo bem mais simples do que se poderia, à partida, imaginar. O PSD ganhou, tem maioria larga com o CDS, poderá formar Governo maioritário de coligação, e tem todas as condições para nos tirar do buraco. Agora, haja competência, vontade política e coragem. Redução do peso do Estado, colocação das contas públicas em ordem (sem arranjinhos nem subterfúgios) e aposta no crescimento económico têm de ser as prioridades. Por esta ordem de prioridade.

Daqui a 4 anos voltamos a falar…

P.S. – Uma palavra para a abstenção: faz-me confusão que mais de 40% das pessoas tenham ficado em casa numa altura destas. Descontentamento expressa-se com o voto, e em último caso, com o voto em branco. Ficar em casa e esperar que decidam por nós para depois criticar é que é! O português é, de facto, um bicho estranho. Queixa-se de tudo, mas depois não consegue levantar o rabo para ir votar. E enquanto assim for…

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O Povo Demissionário

Ponto prévio: sei que os artigos com alto grau de parvoíce são aqueles que merecem a maior atenção daqueles que me dão o privilégio de ser anfitrião quando decidem passar os seus olhos por aqui. Apesar de saber que isto possivelmente valerá menor número de visitas, comentário e feed-back, não me abstenho de escrever sobre o que realmente me perturba agora. E não, não é parvoíce, é mesmo sério!

A campanha já vai longa. Na realidade, todos, até os próprios políticos, parecem já cansados da campanha eleitoral que tem colocado, como só ela, a campanha, sabe fazer, o país em estado de sítio. Já se falou de tudo, desde pelos púbicos, passando pelas nomeações de ultima hora (uma triste realidade em TODOS, repito, TODOS os Governos cessantes), culminando numa pseudo discussão sobre uma possível alteração à lei da despenalização (ou liberalização, se preferirem) do aborto.

O que me parece estranho é esta incapacidade portuguesa de discutir as coisas essenciais. Isso vê-se nas reuniões de trabalho, onde entre parêntesis e chavetas aos propósitos que nos levam a reunir, acabamos por gastar a maioria do tempo em questões que nada têm a ver com esses propósitos. Na política e na sociedade vemos apenas o reflexo disso: quando alguém surge a falar das coisas essenciais, eis que surge um fait-divers, eis que surge um caso de pseudo-agressão, eis que surge um tema lateral e completamente secundário para desfocar novamente tudo e todos. Quanto aos temas centrais? Nada, niente, zero, nicles, peva. Como saímos da crise? TSU para aqui, TSU para ali, pouco mais. Como criamos emprego? Como melhoramos a educação, a justiça? Ao que parece ninguém sabe…tire-se o chapéu ao PSD (quer se concorde ou não com as suas propostas) por ter sido o único a dizer ao que vinha, quando apresentou o seu programa, ao contrário dos restantes, que se limitaram a apresentar programas que terão como destino o caixote do lixo.

Bom, mas não são as propostas que me levam a escrever, mas sim a crescente lateralização e estupidificação da política portuguesa, acompanhada ou até rebocada pelo mesmo fenómeno social. As pessoas não têm paciência para discutir as questões fundamentais. Nas famílias discute-se mais o futebol ou a novela que o futuro ou o planeamento. Nos bares discute-se mais o Jorge Jesus e o Villas-Boas do que o Sócrates e o Passos Coelho. Na televisão discute-se mais a trica e o mexerico do que a questão fulcral. Resumindo, a sociedade alheou-se da política e do futuro, deixou os políticos sozinhos na condução dos destinos do país, e o resultado é o que se conhece…

Pode parecer duro, mas é a realidade. A sociedade (eu incluído) esqueceu-se de fiscalizar, de se informar. Esqueceu-se, inclusivamente, e em alguns casos, de pensar no seu próprio futuro. Nós demitimo-nos de olhar, de ver, de analisar. Preferimos dizer que a culpa ‘é deles’, ou então basear a nossa opinião na opinião dos comentaristas, que nos fazem a análise de tudo, como se socialmente fôssemos bebés, incapazes de ter opinião própria, o que nos leva a que precisemos de um pratinho de Cérélac ou Nestum feito por terceiros para nos ‘alimentarmos’ e termos uma opinião formada.

Meus caros, se não acordarmos e assumirmos as nossas responsabilidades, o país continuará a trilhar o seu caminho desgraçado. Porque o povo não serve apenas para depositar um voto numa urna de x em x tempo, nem apenas para pagar impostos. O povo serve para ver, analisar, pensar e tomar decisões em consciência. Enquanto nos continuarmos a demitir desse facto não passaremos de simples marionetas nas mãos de toda uma classe política. Seja ela qual for.

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O momento é sério (mas a campanha não)

E parece que ainda ninguém se mentalizou disso o suficiente para parar de brincar aos países e aos políticos. São não-sei-quantos-mil-milhões para aqui, mais umas dezenas de milhares de ‘trocos’ para ali, são as tricas e os disparates, a falta de lucidez e a jogada rasteira, tudo reina mas a verdadeira intenção de esclarecer as pessoas.

O que descrevo neste último parágrafo teve o seu expoente máximo no debate Portas-Sócrates a que ontem assisti. O momento da pasta vazia. Um excelente fait-divers feito por um mestre do marketing político, que mais parece preocupado com estas coisas do que com explicar como vai, depois de ter duplicado a dívida pública em míseros seis anos, tirar o país desta situação, caso vença as eleições. O entretanto famoso ‘Luís’ fez bem o seu trabalho, de um PM que deixa o país em posição de pré-bancarrota já não poderemos afirmar o mesmo.

E o problema reside no seguinte: há volta disto tudo parece ser confusão. Temos o maior partido da oposição que claramente tem dificuldades em fazer passar a mensagem de forma séria e credível, fruto de meia-dúzia de tiros nos pés que abriram caminho à delapidação do capital de confiança que Pedro Passos Coelho poderia ter granjeado. Em vez de se concentrar em propostas, perdeu-se nas questiúnculas laterais deste processo e deixou-se enredar na armadilha, indo atrás da politiquice, sem que nada tivesse ganho com isso.

Algumas coisas estranhas desta eleição: alguém conseguiu passara a ideia de que ‘estes ou outros, tantos faz! Eles são todos iguais’, ideia essa que é a antítese da democracia, que se baseia e muito na renovação dos políticos e, se o povo assim o entender, das cores políticas. Mais: alguém conseguiu passar a ideia de que mudar de governo agora será uma aventura pela qual poderíamos vir a pagar caro no futuro. Caros amigos, nós já estamos a pagar e muito caro o aventureirismo que nos lançou numa crise profunda.

E depois de tudo isto há o povo português. O mesmo que diz que sim, que o governo tem de fazer cortes, que o Estado não pode gastar tanto, mas que se revolta sempre que há indícios de corte em alguma coisa. O mesmo povo que veio para a rua em Março, mas que se prepara para ficar tranquilo na sua casa em Junho. O mesmo povo que deveria exigir que houvesse seriedade, verdadeira discussão e propostas de um lado e de outro, castigando aqueles que nada têm proposto até agora.

Da esquerda à direita. De Louçã a Portas e de Sócrates a Passos Coelho. A verdade em vez da demagogia. A discussão no lugar do fait-divers. Está na hora de alguém assumir essa responsabilidade. Sem isso, duvido que consigamos sair desta cepa torta em que nos metemos. O momento é sério. Sejamos sérios nós também…

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