Posts Tagged #sociedade

Ser ou não ser Charlie.

Os acontecimentos da última quarta-feira tomaram-nos de assalto e causaram um sentimento generalizado de revolta. Independentemente da nossa opinião, ou até do conhecimento (na maioria dos casos, total desconhecimento, diga-se) do trabalho do Charlie Hebdo, todos agimos como se os nossos valores tivessem sido colocados em causa. E foram-no. Numa Europa com muitos defeitos, é possível ver a olho nu duas enormes virtudes, a liberdade e a tolerância. O que aconteceu na quarta-feira atacou não só esses como ainda um outro valor, suporte de grande parte da vida que levamos neste lado do Globo, a segurança.

Por opção, não vou falar da linha editorial do Charlie Hebdon. Sinceramente, considero-a irrelevante para o caso. Nada, neste mundo ou no outro, justifica que homens armados matem indiscriminadamente quem quer que seja. Nada. E recuso-me a coloca um ‘mas’ nesta frase, porque fazê-lêo constitui um perigo imenso. Um ‘mas’ aqui inocentemente colocado é a cedência à chantagem inteligentemente perpetrada através deste terror que nos querer fazer ver o mundo a uma só cor.

Qualquer discussão sobre os limites da liberdade de expressão, de pensamento ou de imprensa deve ser independente de actos como os que ocorreram em Paris. Sim, a liberdade e os excessos que ela provoca e sempre provocou/provocará devem ser discutidos, mas nunca à luz da barbárie, sob pena de estarmos a ceder à linha de pensamento que norteia gente capaz de fazer uma coisa destas. Imaginemos um mundo em que, por cada opinião discordante, se levanta uma AK47. A liberdade e os seus limites devem ser discutidos sem recorrer à natural limitação que estes acontecimentos nos impõe ao raciocínio. Até porque a liberdade, terror e rajadas de metralhadora não parecem ser compatíveis.

Não incorramos no erro de assumir que o bom senso trata do resto. O bom senso é um desafio individual. O meu bom senso não é o seu bom senso, caro leitor. E vice-versa. Achar que tudo se pode resolver nesta base é produto de um certo egocentrismo a que nos impomos, e que crê genuinamente na bondade e superioridade de tudo aquilo em que acreditamos. Não, o meu bom senso, sendo diferente, não é superior ao de ninguém. E acontece que nem tudo aquilo em que creio é verdadeiro e bondoso. Isso prova-se pelo número de vezes que acreditámos piamente em factos, pessoas ou histórias que se vieram a revelar falaciosas ou até maldosas.  Esta margem de erro é algo com o qual temos de aprender a viver e conviver. Há coisas que eu faço que ferem o bom senso de alguns, e o contrário é válido também. Por isso de nada nos vale a assunção de que a liberdade é assunto da esfera desta esfera. Não, a liberdade, enquanto valor colectivo, tem de se sobrepor a esse bom senso, valor individual. O facto de não concordar, de achar idiota, ou até de achar ofensiva a opinião de alguém, não me dá o direito de a silenciar. Dá-me o direito, e às vezes até o dever de a refutar, mas nunca me dá o direito de silenciar seja o que for.

Termino com palavras de uma figura que muito admiro e respeito, e sobre quem convido os leitores a pesquisar e conhecer um pouco da sua história. Martin Niemoller. Pastor luterano, conservador, enganado pelo canto da sereia dos primeiros anos de nazismo que parecia defender um país forte e seguro, tornou-se um dos maiores opositores ao regime nazi da Alemanha de Hitler, facto pelo qual pagou alto preço. A determinado ponto, eis as suas palavras:

“Quando os nazis levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata. Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse”

Eu não sei se sou Charlie. Mas espero que, se algum dia me levarem, ainda por cá haja alguém para protestar.

, , , , , ,

Deixe um comentário

%d bloggers like this: